O segredo dos seus olhos: impossível mudar a paixão
Críticas GeraisNa minha cabeça, demorei muito tempo para ver O segredo dos seus olhos (2009). A primeira vez que vi foi em 2013. Foi uma das melhores experiências fílmicas daquele ano. Dois detalhes em especial me chamaram mais atenção: o primeiro deles foi a relação entre o crime que se narrava e seu desfecho; o segundo, a relação com os personagens, principalmente Benjamin Esposito, Irene Hastings, Pablo Sandoval, respectivamente muito bem interpretados por Ricardo Darin, Soledad Villamil e Guillermo Francella. Foi com esse filme que começou a minha pequena grande obsessão com Ricardo Darín.
Essa primeira experiência com o filme também acabou moldando a forma como passei a olhar para narrativas de investigação, mas, sobretudo, para as narrativas de amor. O filme conta a história de um agente federal que, a partir do processo de reviver as memórias de um dos casos de feminicídio mais cruéis de sua carreira, tenta entender o que deixou passar despercebido em sua própria vida. Essa ação de tentar escrever e rememorar as memórias já foi muito usada na literatura, seja por Riobaldo, de Grande Sertão Veredas, seja por Bentinho, de Dom Casmurro. Quando o cinema faz isso, torna duplamente interessante já que temos acesso às imagens, inclusive, na ordem em que o personagem-narrador quer nos contar, ou melhor, sabemos tudo a partir de como ele se sentiu e experienciou as coisas.
Essa escolha de transformar o protagonista em alguém que escreve sobre sua própria experiência acaba funcionando como um artifício poderoso para nos aproximar emocionalmente da narrativa. A escrita se torna quase uma segunda investigação: uma busca pelo sentido das próprias ações e uma tentativa de recuperar algo que foi deixado para trás, ou melhor, que o protagonista acredita ter deixado para trás. Eu gosto muito disso, particularmente, de como a memória é costurada, nem sempre linear, mas é aquilo que nos alimenta. Bom, eu, pessoalmente, entendo como nosso maior tesouro, seja ela pessoal, seja ela coletivo, de todo um povo, de toda uma gente. Lindo como a memória permite que a gente se cuide mais e não aceite qualquer lugar para nós e para os nossos.
Esse jogo entre lembrar e interpretar também expõe outro aspecto sensível do filme: a diferença entre verdade e percepção. Como vocês sabem, escrevo muito sobre isso aqui. Talvez uma das coisas que me inquieta, me motiva. Como cada obra é capaz de criar um universo particular em que muitas das nossas tão rígidas “verdades” podem ser superadas e transgredidas. Aqui, nesse filme, não é exatamente assim. No entanto, Esposito além de personagem é um narrador que tenta lidar com o incômodo de não saber se fez o suficiente, pela vítima, pela justiça e por si mesmo.

A trama nos traz ainda essa rememoração e alguns questionamentos de como as próprias lembranças de Esposito são intensas. Inclusive o personagem leva o livro que está escrevendo para Irene, sua antiga chefe e paixão. Ela brinca sobre a intensidade das afirmações. Tudo para dizer que o roteiro se serve muito desse detalhe. Nessa investigação, a parte de quem cometeu o crime é resolvida, relativamente, rápida. A grande questão é o que foi feito para pegar o assassino e quais foram seus desdobramentos e consequências na vida das pessoa conectadas à vítima ou na busca por justiça.
Nesse sentido, eu — mesmo depois de anos — ainda considero esse roteiro uma grande obra. Inclusive porque ele me lembrou que uma grande histórico pode ser também intrigante, apaixonante e, de alguma forma, agradar a vários públicos sem a necessidade de se intitular um filme cult e tudo o que isso significa. Vamos falar a verdade, tem muito filme entendido como cult que é chato para a maioria das pessoas. Eu gosto de vários deles, mas é uma grande qualidade quando um filme consegue ser legal, interessante, premiado e muto bem feito. Tudo isso junto e misturado.
Ainda nesse caminho, gostaria de destacar uma das cenas principais do filme: a famosa sequência no estádio de futebol. Ela foi, inclusive, tema de uma aula de direção que assisti anos atrás, justamente por sintetizar um conjunto impressionante de escolhas técnicas e narrativas. Na época, foi apresentada como um grande exemplo de cena envolvendo multidões, coordenação e perseguição. Mas o impacto dela não se resume ao virtuosismo técnico. Quando a revisito hoje, continuo sentindo o mesmo desconforto crescente: uma combinação de ansiedade, urgência e desespero mesmo.
Esse efeito é ainda mais notável por ser um filme argentino parte do cinema latino, notável no sentido de ser singular. Há ali uma cadência particular, uma espécie de tensão que cresce a partir do jogo de futebol, mas, sobretudo, da proximidade com os personagens e da sensação de que tudo pode se desfazer em segundos. Mesmo comparando com cineastas estadunidenses que dominaram as cenas de perseguição, de Alfred Hitchcock a Brian De Palma e Martin Scorsese, o que Juan José Campanella, diretor e roteirista do filme, faz é criar uma atmosfera que existe em função da história. É, sem dúvidas, uma cena que demonstra o domínio técnico e emocional do filme sobre o espectador.
Outro detalhe que vale a pena mencionar: Campanella é o mesmo diretor de O Filho da Noiva, um filme que eu adoro. Inclusive, gosto muito de como O Filho da Noiva fala de afeto, memória, responsabilidade e desse tipo de amor. De alguma maneira, esse mesmo olhar está por trás de O Segredo dos Seus Olhos. Há uma coerência bonita na forma como Campanella enxerga as pessoas e as histórias que escolhe contar.
Por fim, queria destacar o que realmente me toca muito no filme: primeiramente, o amor entre Irene e Esposito. Gosto como a vida lhes tira muitas coisas e lhes dão outras. Desde a primeira vez que vi a relação deles me tocou muito. Há algo de muito verdadeiro na maneira como o roteiro constrói esse amor interrompido por circunstâncias, escolhas e medos, um amor que nunca chega a desaparecer, ainda bem. Para saber como eles terminam no final, te convido a assistir ao filme.

A segunda questão é que esse filme reverbera muito em mim. Ele me ensinou uma das lições mais importantes que eu podia aprender na vida: podemos mudar tudo em nós, de nome, de cabelo, de trabalho, de esposa(o/e), mas não podemos mudar de paixão. A paixão é a única coisa que resiste ao tempo, às frustrações e às tentativas de reorganizar a própria vida. Mesmo quando o cinema me decepciona, quando me afasto dele ou quando sinto que já não tenho mais o mesmo entusiasmo, essa frase volta: não importa quanto tempo eu passe sem rever o filme, a paixão não se muda. Aliás, é até difícil explicar sobre isso para quem não tem paixão. O que acham?
Por tudo isso que esse filme segue tão presente na minha vida. Cada vez que penso nele, lembro do motivo pelo qual me apaixonei pelo cinema em primeiro lugar. No cinema, não importa o gênero do filme tem sempre espaço para o amor em todas as suas mais diversas formas. Mesmo quando acredito que já não tenho mais o mesmo fôlego para ver tudo, o cinema encontra um jeito de me puxar de volta, de me lembrar do poder que uma boa história tem de tocar, acalmar, ferir, reconstruir, nos provocar e tudo isso junto. Será que isso seria muito romântico?











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