Midnight Cowboy (1969)

Críticas Gerais

Quando pensamos na Hollywood clássica, é quase impossível não associá-la ao cinema de gênero. Principalmente ao western, que pode-se dizer ser uma dos alicerces de todo o cinema estadunidense. Quando assistimos aos filmes do John Ford, o que vemos nos protagonistas é a personificação do que a sociedade norte-americana esperava de uma figura masculina na época — tanto em suas virtudes quanto em seus defeitos, que por vezes nem eram considerados desvios de caráter, mas sim o modus operandi daquele tempo.

Chegando ao final dos anos 60, o mundo estava mudando; um novo pensamento pairava por toda a sociedade ocidental. E quando a sociedade muda, o cinema muda junto. No eco do que acontecia na França, onde os garotos da Cahiers du Cinéma mudaram o rumo da sétima arte, a Nova Hollywood começava a nascer. A tempestade perfeita estava sendo formada: o final do Código Hays, o fim do oligopólio dos estúdios de cinema, o movimento de contracultura — tudo estava lá para dar à luz um dos períodos mais férteis da história do cinema.

Nesse período inicial, encontramos marcos como Bonnie and Clyde (1967), A Primeira Noite de um Homem (1967), Easy Rider (1968) e vários outros responsáveis por estabelecer o tom desse novo momento. Mas é em 1969 que a adaptação do livro Midnight Cowboy, de James Leo Herlihy, transforma toda aquela ebulição de ideias e novas possibilidades em realidade.

Dirigido por John Schlesinger, Midnight Cowboy conta a história de Joe Buck (Jon Voight), que sai do Texas para tentar a vida como garoto de programa em Nova York. Ele conhece Enrico Salvatore Rizzo, o “Ratso” (Dustin Hoffman), um trambiqueiro que também está tentando melhorar de vida.

A primeira cisão com o clássico é justamente essa figura do cowboy, diametralmente oposta à imagem de John Wayne à qual estávamos acostumados. Joe usa esse estereótipo apenas para chamar a atenção das mulheres — justamente para evocar essa aura e utilizá-la em benefício de seu ofício. Aquele ideal de homem, aqui, serve para reforçar os contrastes entre a realidade e sua representação no cinema. Ao longo do filme, inclusive, vemos as próprias roupas de Joe se deteriorarem, como se, ao chegar a Nova York com esse ideal na cabeça, quanto mais ele fosse confrontado com a realidade, mais essa figura mitológica se esvaí, dando espaço ao mundano, ao real, muito menos glamoroso — algo que se expressa visualmente no figurino.

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A relação que acompanhamos entre Joe e Ratso nos confronta com a ideia do sonho americano. Por mais que hoje existam inúmeras obras sobre a falência desse ideal, na época, aterrissar esse tema na realidade não era tão comum. O diretor nos traz esses questionamentos quando vemos os dois personagens fazerem o que é preciso para conseguir uma vida melhor — e ainda assim não alcançarem essa ascensão.

A própria figura de Dustin Hoffman e seus personagens, que se tornariam muito presentes nesse período, era diferente do padrão. Por mais que depois tenha interpretado papéis mais alinhados aos ideais de masculinidade, no começo da carreira ele vive um jovem completamente perdido e inseguro em A Primeira Noite de um Homem e, agora, em Midnight Cowboy, interpreta um homem pobre, que vive em um prédio abandonado e precisa cometer pequenos furtos para sobreviver. No subtexto, também podemos começar a questionar sua sexualidade, que parece reprimida; mas quando sua relação com Joe se solidifica, alguns sentimentos começam a extrapolar a primeira camada preconceituosa de sua razão.

 

O desfecho da obra pode ser arrebatador, justamente porque acompanhamos os personagens tentando essa ascensão social durante todo o filme — e ascensão aqui significa ganhar dinheiro de todas as formas possíveis. Mas tudo o que tentam parece dar errado, e, por causa desse abandono e precariedade em que vivem, os problemas surgem em sequência. Ainda assim, a esperança de uma vida melhor permanece dentro deles, como se a chama do sonho americano nunca fosse se apagar. Ratso acredita que precisa ir para a Flórida, que lá tudo será diferente; inclusive vislumbra com uma vida de excessos e luxos.

Quando Joe consegue comprar as passagens para a Flórida — mesmo precisando fazer coisas que não lhe agradavam pessoalmente para conseguir o dinheiro — o destino é implacável. Ratso, doente em razão de vida precária, morre durante a viagem. Isso nos faz pensar que não importava o que ele fizesse: seu destino já estava traçado. Por mais que tentasse, a sociedade havia sido arrebatadora com ele, física e emocionalmente. Ele não consegue chegar à sua terra prometida, onde tudo daria certo. Morre no caminho. Ele é um daqueles personagens que, na frase “fique rico ou morra tentando”, morre tentando.

Midnight Cowboy é uma obra que não busca agradar o telespectador. Ela traz uma visão mais crua da realidade, ao contrário dos filmes de estúdio que estávamos acostumados. A cisão aqui é mais bruta, mais radical — um olhar maduro sobre a mudança de uma época. É, com certeza, uma obra essencial para compreender melhor esse período que mudou o cinema para sempre.

Comentários 2

A
Ander Cover19 de novembro de 2025
Um grande clássico!!
L
Lucas.18 de novembro de 2025
Este filme é um clássico!

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