O Agente Secreto: quando o cinema lembra o que o país esqueceu
Críticas GeraisEu lembro perfeitamente do que senti quando a Cinemateca pegou fogo, em 2021.
Lendo a manchete da notícia, logo pensei que tinha sido o prédio principal, na Vila Mariana, que havia sido atingido.
Imaginei as salas de cinema queimando, o jardim cheio de cinzas, a cafeteria com labaredas até o teto.
Porém, ao clicar na notícia, li que um dos galpões da Cinemateca, na Vila Leopoldina, é que havia sido a vítima do incêndio.
Nesse prédio, que não era aberto à visitação, ficavam guardados um milhão de documentos da antiga Embrafilme como roteiros, arquivos impressos, cópias de filmes e equipamentos antigos, itens altamente inflamáveis.
Alguns desses documentos, inclusive, tinham mais de 100 anos.
Eu lembro de ter ficado ainda mais triste; com tantas memórias perdidas e com a História do audiovisual brasileiro totalmente negligenciada
Coincidentemente, a gestão da Cinemateca foi transferida para o governo federal em agosto de 2020, meses antes do incêndio.
Oito meses depois, em abril do ano seguinte, os funcionários da instituição divulgaram um manifesto denunciando o estado de abandono que o local se encontrava e cobrando da Secretaria Nacional do Audiovisual esclarecimentos sobre a implementação do plano emergencial anunciado pelo secretário de Cultura, Mário Frias, em dezembro de 2020.
Cinco anos depois, o Presidente mudou, o Ministério da Cultura, que havia sido extinto em 2019, voltou a existir e a Cinemateca é hoje administrada pela organização social Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), existente desde 1962.
Quando o poder público e a sociedade se movimentam em prol do audiovisual brasileiro, parece até que ele “responde” nos dando filmes incríveis que falam, justamente, sobre a importância de preservação da nossa memória.
E o mais recente expoente do assunto é O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho.
Ambientado em 1977, o filme conta a história de Marcelo (Wagner Moura), um professor de tecnologia que é marcado por um passado violento e enigmático. Um dia, ele decide abandonar tudo em São Paulo e recomeçar a vida no Recife.
Ele chega à cidade em pleno auge do Carnaval, esperando encontrar paz em meio à música, às festas e às marchinhas, mas o que encontra é justamente o oposto.
O caos que ele acreditava ter deixado para trás parece ter vindo junto na bagagem.
Apesar de estar reunido com seu filho, e os pais de sua esposa, Marcelo percebe que está sendo observado a cada passo que dá. A cidade que deveria ser seu refúgio se transforma em uma espiral de medo e paranoia.
O filme se constrói sob muitas camadas de tensão, dignas de um neo-noir bem feito: há perseguições, assassinatos, personagens misteriosos e um clima constante de desconfiança.
No entanto, o que diferencia O Agente Secreto de um thriller convencional é o modo como ele integra a política brasileira à experiência individual.
Marcelo, aqui, funciona como símbolo; ninguém escapa completamente do contexto político em que vive. A paranoia do protagnonista reflete o clima de profundo receio que caracterizava o Brasil dos anos 1970, em plena ditadura militar.
Aqui, o drama familiar se entrelaça com o trauma coletivo, revelando como questões políticas se infiltram até nas tentativas mais pessoais de recomeço.
A abordagem do filme, porém, não foca em eventos específicos da ditadura, apresentando presos políticos desaparecidos, detenções, ou cenas de tortura.
O filme é quase sinestésico; comprometido em passar a “sensação” de como era viver naquele período.
Para que o espectador engaje com essa sensação, porém, ela precisa ser muito bem construída, e essa construção vai além do roteiro e, até mesmo, das atuações.

Primeiro de tudo, temos o design de produção.
Thales Junqueira resgatou, literalmente, o Recife dos anos 70. Carros, objetos, decoração de interiores, jornais; tudo isso faz com que não consigamos sair da imersão do filme. Nenhum detalhe está fora do lugar.
Segundo de tudo, temos a cinematografia.
A direção de fotografia de Evgenia Alexandrova é um primor e um dos pontos altos do filme. O uso de Lentes Panavision dos anos 70 evoca a exata estética dessa época, nos remetendo a filmes como Serpico, Amargo Pesadelo e Hollywood 90028. Temos também o uso do zoom, do qual Kleber Mendonça sempre foi muito adepto, uma ferramenta considerada por muitos como “demodê”.
Falando nisso, também temos a edição.
As transições de cena usadas no filme são ditas como ultrapassadas por vários editores: fades longos e “wipes” chegam a ser chamados de “bregas” por não se encaixarem no modo “atual” de se fazer cinema.
Kleber Mendonça, porém, não está filmando a atualidade.
Todas as escolhas desse filme foram feitas de maneira extremamente consciente.
Kleber vai além da homenagem, ele usa o cinema dos anos 70 como fio condutor da narrativa.

Se fôssemos escolher um gênero cinematográfico para O Agente Secreto, “thriller” seria aquele no qual ele mais se encaixa, se fôssemos escolher um subgênero, seria “thriller político” e, se seguíssemos nichando a produção, chegaríamos a “filme sobre cinema”.
Tubarão, por exemplo, é um dos filmes que o filho de Marcelo quer muito assistir, mas o pai proíbe por ser violento demais, já o sogro de Marcelo é projecionista do icônico Cinema São Luiz; com diversas cenas momentos funcionam como um claro aceno ao filme Cinema Paradiso.
Ao longo do filme, portanto, Kleber Mendonça Filho insere “pistas”de filmes que marcaram o cinema brasileiro e mundial dos anos 1970.
Essas referências, porém, não são meros easter eggs cinéfilos.
São inserções que servem como camadas de memória.
Elas lembram o espectador de que o cinema é, por natureza, um arquivo vivo: ele guarda vozes, sotaques, cenários e medos de uma época. E o gesto de Kleber é duplamente político, ele não apenas faz um filme sobre a ditadura, mas faz um filme com o cinema que sobreviveu à ditadura, e também à falta de investimento e a diversas tentativas de desmantelamento; Kleber faz cinema brasileiro.
Um cinema cada vez mais reconhecido dentro do próprio país e lá fora também.

E claro que o clima de copa do mundo já começa a se instalar novamente no Brasil com a temporada de premiações se aproximando.
Diversas revistas americanas já começaram a apontar O Agente Secreto como um forte candidato ao Oscar, em diversas categorias. A Variety destacou sua “potência atmosférica e profundidade simbólica”, enquanto o Hollywood Reporter o descreveu como “um dos filmes internacionais mais sofisticados e ambiciosos do ano” e o Gold Derby, site especializado em previsões de premiações, já o coloca entre os favoritos a Melhor Filme Internacional e Wagner Moura entre os cinco nomes mais cotados a Melhor Ator.
Imagina se ganharmos algo?
Vai ter vuvuzela, rua cheia, vai ser Carnaval em dobro no país inteiro, como foi no começo de 2025.
Porém, não podemos esquecer da maior coincidência entre O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui.
De formas completamente diferentes, ambos falam sobre ditadura militar e, mais ainda, sobre o ato de lembrar. E o passado do Brasil precisa urgentemente ser resgatado; através de livros de história, de entrevistas e, principalmente, através do audiovisual.
Se o incêndio da Cinemateca em 2021 representou a destruição de parte da nossa memória, o filme de Kleber Mendonça Filho nos diz que a reconstrução deve ser constante.
Preservar o cinema é preservar quem fomos, e quem ainda podemos ser.












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