"Materialists" (2025) - Comentários: Amor ou algoritmo?
Críticas GeraisApós a obra-prima Past Lives (2023), um dos melhores filmes da década, de acordo com este que vos escreve, Celine Song retorna aos cinemas com Materialists (2025), uma produção da A24 estrelada por Dakota Johnson, Pedro Pascal e Chris Evans. Aqui, acompanhamos Lucy (Johnson), uma casamenteira profissional de Nova York que ajuda seus clientes a encontrarem o tão sonhado "amor ideal", até que se vê envolvida num triângulo amoroso com Harry (Pascal), um bilionário encantador, e John (Evans), seu ex-namorado, um ator frustrado tentando sobreviver em Nova York. Com um orçamento de 20 milhões de dólares, Materialists se tornou o primeiro projeto independente de 2025 a ultrapassar a marca dos 100 milhões em bilheteria global.
É inevitável dar play em Materilists sem uma lembrança de Past Lives, o que cria, desde o inicio, uma certa expectativa e, consequentemente, resulta num contraste considerável. Song mantém sua visão exploratória sobre amor e suas interseções envolvendo tempo, escolhas e contexto social, mas os resultados se mostram menos regulares dessa vez. A obra tem boas intenções, falar sobre o amor em tempos de algoritmos, sobre como o material molda nossas relações e a confusão entre o que é amor e o que é conveniente, contudo, o filme nunca se aprofunda, de fato, em nenhum dos temas que apresenta. Apesar da proposta de desconstruir o gênero da comédia romântica ser clara, o longa acaba sendo um drama que se equilibra entre a ironia e a melancolia, nunca atingindo a força emocional da obra predecessora de sua idealizadora. De qualquer modo, ainda há um charme, uma elegância e, mais importante que isso, ainda há uma reflexão válida sobre o que significa amar em tempos de dinheiro e performance.
O roteiro, assinado também por Song, busca trabalhar um paralelo entre as dinâmicas de relacionamento e o consumo - como se o amor fosse uma mercadoria negociada por aplicativos. A própria Lucy é o símbolo perfeito dessa lógica. Contudo, o filme passa a sensação de dispersão ao tentar entrar em muitos assuntos como independência emocional, ambição, autenticidade, carreira, e nunca se aprofundar realmente em nenhum. São claras as boas intenções do roteiro, mas o impacto nunca chega ao seu potencial. As discussões sobre "algoritmização" dos relacionamentos (onde eu posso patentear esse termo?) estão presentes, nós a notamos e percebemos, mas não é o suficiente para carregar o filme.
Dakota apresentar um trabalho moderado, tentando combinar fragilidade e razão, mas nada de grande destaque. É compreensível, contudo, considerando a natureza introspectiva de sua personagem. Ela parece seguir a risca o tom de Song, sutil, observadora, um pouco distante, e isso é bom, ainda que não eleve, de fato, o filme. Pascal, por outro lado, tem aqui uma das atuações menos marcantes de sua carreira recente, limitado a um papel que carece totalmente de dimensão e aprofundamento. Não poderia me importar menos com Harry e sua cirurgia de alongamento ósseo. Já Evans traz leveza e naturalidade: existe algo relativamente revigorante em vê-lo assumir um papel simples, humano e até fracassado, depois de anos em personagens heroicos. O trio funciona bem, mas nenhum deles se destaca a ponto de deixar uma marca duradoura.
Song apresenta mais uma vez sua habilidade em observar o comportamento humano - os olhares, as pausas, os silêncios. É uma direção elegante, emocional, mas também mais fria e cerebral do que em Past Lives. No primeiro, ela passa o amor como algo quase que espiritual, aqui, ela o enxerga como uma transação social. É uma diferença de abordagem interessante, apesar do resultado final carecer da emoção que torna seu trabalho anterior tão grandioso e memorável. Ainda, é perceptível seu esforço em revisitar a comédia romântica sob uma ótica moderna, desromantizando-a e mostrando o amor como uma espécie de espelho das estruturas materiais. Se é uma boa maneira de fazer isso ou não, é outra discussão, mas é, no mínimo, interessante.
Visualmente o filme, com seus tons quentes e luz natural, cria uma Nova York contemporânea e limpa, esteticamente agradável e serve bem à narrativa. A trilha sonora, por outro lado, é quase imperceptível - uma escolha que traz os diálogos e silêncios para a camada principal. O design de produção e figurino ajudam a trazer o contraste entre os mundos de Lucy, Harry e John: do luxo de um a precariedade do outro. Tecnicamente, o filme não possui falhas, mas falta o toque emocional que fez de Past Lives algo verdadeiramente tocante.
Materialists foi vendido como uma comédia romântica "à moda antiga", o que talvez tenha gerado expectativas equivocadas na maior parte do público. Afinal, o que se vê na tela é, na verdade, um grande drama introspectivo sobre a busca por autenticidade num mundo regido por superficialidades. Ainda assim, o filme tem seu público, em parte por conta do seu elenco estelar e em parte por preencher um vazio no cinema contemporâneo, cansado de franquias, remakes e reboots. A A24 mostrou, mais uma vez, que sabe posicionar seus projetos, apostando num marketing que uniu nostalgia e atualidade. E, mesmo com um misto de críticas, o sucesso comercial de Materialists confirma que o público ainda está aberto por histórias humanas.
Materialists é um bom filme, mas não é um grande filme. Celine Song entrega um longa coerente com sua ótica autoral - delicada, observacional, cheia de subtexto -, mas que não alcança o ápice emocional e narrativo de Past Lives. Dakota Johnson, Pedro Pascal e Chris Evans fazem o que podem dentro de um roteiro que flerta com profundidade, mas nunca passa do segundo date, sem chegar nem perto do casamento. Ainda assim, existe honestidade na proposta e uma sensibilidade no olhar de Song sobre o amor em tempos de algoritmos e solidão. Materialists talvez não emocione tanto quanto deveria, mas com certeza convida à reflexão sobre o que, afinal, estamos buscando quando buscamos amar.










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