Entrevista | Tonatiuh, de O Beijo da Mulher Aranha: “Todos nós interpretamos um papel na vida”
Indústria
Para nós, brasileiros, uma nova versão de O Beijo da Mulher Aranha sempre vai estar ligada ao filme de 1985 dirigido por Hector Babenco. Vencedor do Oscar de Melhor Ator para William Hurt e indicado em outras três categorias (incluindo Direção para Babenco e Melhor Filme) e peça fundamental na carreira internacional de Sônia Braga (indicada ao Globo de Ouro), a adaptação do romance de Manuel Puig ganharia o tratamento musical da Broadway na década seguinte.
Agora, o diretor Bill Condon (de filmes como Dreamgirls – Em Busca de um Sonho e o live-action da Disney A Bela e a Fera) traz novamente para as telonas a história da amizade que se forma em uma prisão na Argentina durante a Ditadura, em uma adaptação do musical. O papel de Luis Molina (que rendeu o Oscar para Hurt e, nos palcos, foi originado por Brent Carver) agora fica nas mãos de Tonatiuh, em seu primeiro protagonista no cinema após papéis em filmes como Bagagem de Risco (Carry On, 2024) e séries como Promised Land (2022), do Hulu, e Vida (2018–2020), do Starz. No filme, ele divide a cena (e a cela) com Diego Luna, que interpreta o prisioneiro político Valentín Arregui. Já as ilusões de Hollywood clássica de Molina são vividas junto a Aurora, personagem da estrela de cinema Ingrid Luna, que, aqui, fica a cargo de Jennifer Lopez.
Conversei com Tonatiuh recentemente sobre a influência do trabalho de William Hurt e a importância de se recontar O Beijo da Mulher Aranha em um 2025 marcado pelas medidas de segregação do governo Donald Trump em relação à comunidade latina nos Estados Unidos.
Camila: No Brasil, crescemos com a versão de 1985, do Hector Babenco, mas sei também que, por mais brilhante que seja a atuação de William Hurt, há questões que hoje são melhores discutidas em relação à representação das comunidades queer e latina. Você teve a oportunidade de assisti-lo antes das filmagens? Que elementos você achou importante adicionar ao personagem para ligá-lo ao contexto atual do mundo?
Tonatiuh: Sim, eu assisti. Eu sou um artista, e, assim que eu consegui o papel, a minha parte favorita (do processo) foi procurar todas as versões. Eu li o livro e a peça, eu assisti ao filme, ao musical, ouvi todas as versões para as músicas que eu consegui achar, porque eu considero esse um trabalho muito importante. A escrita de Manuel Puig transcende o tempo e, quando as pessoas se conectam com ela, elas contam um pouco de si mesmas também, então eu queria saber o que todos os artistas que foram impactados por essa obra sentiram, para que eu também pudesse extrair algo (dessas interpretações), como uma forma de homenagear essas pessoas também. Sobre o William Hurt, é importante falar que ele interpretou esse personagem quando estava no auge da carreira. Ele entrou nesse projeto e deu voz a histórias de pessoas marginalizadas, e esse é um nível de responsabilidade que não passa despercebido por mim. Em um momento em que chamam pessoas trans de terroristas por simplesmente existirem e em que latinos são tratados como criminosos por simplesmente existirem, eu queria me certificar de que (neste filme) nós estamos dizendo que amamos e vemos essas pessoas. Eu perdi uns 20 quilos em 50 dias, e estudei tudo o que estava a meu alcance para a parte musical do filme, em que interpreto o personagem Kendall Nesbitt. Eu sou cinéfilo, amo cinema, então eu também quis homenagear os clássicos, e tentar fazer do Kendall uma mistura, com o cabelo do Errol Flynn, os maneirismos do Gene Kelly e o trauma e a profundidade do Montgomery Clift. No fim do dia, o que o nosso filme diz é que os latinos são Hollywood. Não somos os latinos DE Hollywood ou uma parte separada da indústria. Nós somos Hollywood.

Camila: Pegando esse gancho, no final do filme, o seu personagem fala que aprendeu sobre dignidade no lugar com menos dignidade. É algo tão bonito. Eu queria que você falasse sobre como as mensagens do filme se encaixam no atual momento da comunidade latina nos Estados Unidos.
Tonatiuh: Eu acho que todos nós interpretamos papéis na vida. Às vezes, herdamos um papel e o interpretamos sem saber que não é algo para a gente. Especialmente nos Estados Unidos - e eu sei que é um pouco diferente para você, morando no Brasil -, as pessoas esperam que os latinos sejam humildes, pequenos, e eu digo que não, que esse não é o papel que eu quero fazer na vida. O que eu quero é ser feliz, ser grande, ter dignidade e ser respeitado, e fico muito feliz em dividir esse mundo (do filme) com a minha comunidade, não importa o país. Recentemente, eu fiz uma sessão de fotos com a Vogue do México e, na entrevista, eles perguntaram o que é ser latino. Eu disse que ser latino significa nunca estar sozinho no mundo. Há uma família para você em todo lugar.
Não somos os latinos DE Hollywood ou uma parte separada da indústria. Nós somos Hollywood.

Camila: As sequências musicais do filme são impressionantes, em uma escala que faz homenagem aos clássicos da Hollywood clássica. Como foi o processo de ensaiar esses números, especialmente na companhia do Bill Condon, que é um diretor com bastante experiência no cinema musical, e de Jennifer, que já vem do mundo da dança, apesar de que este é o primeiro musical, o que é surpreendente se a gente parar pra pensar.
Tonatiuh: É, foi maravilhoso. Eu tive três semanas e meia para ensaiar com Sergio Trujillo e Christopher Scott, dois dos coreógrafos que trabalharam no filme. Parece um filme super caro, mas nós tínhamos um orçamento curto, então filmamos onze números musicais em 17 dias. Não é muito tempo. Nós falávamos de 12 a 16 horas por dia e passávamos para o próximo número. Não fazíamos de novo. Nos comprometemos a fazer o menor número de takes possível, porque esse era o jeito de se fazer daquela época. Eu acho que fez a diferença ter alguém incrível como a Jennifer Lopez para que a gente conseguisse fazer as cenas de primeira. Eu lembro de ir ao set para assistir números que eu nem fazia parte. Eu só queria testemunhar a mágica que estava sendo criada no set. Eu já vi o filme algumas vezes e eu sempre bato palmas para o que está na tela. Essa é a beleza da arte, é fazer você querer pular na sua cadeira.
















Comentários 1