A Mãe que assombra

Críticas Gerais

Nos últimos dias, assisti a três filmes no cinema: Enterre Seus Mortos (Marco Dutra, 2024), Uma Batalha Após a Outra (Paul Thomas Anderson, 2025) e Terror em Shelby Oaks (Chris Stuckmann, 2024). Não sabia praticamente nada sobre nenhum deles, exceto pelos diretores nos casos de Dutra e PTA. Curiosamente, por mais que sejam filmes bastante diferentes em estilo, gênero e nacionalidade, percebo que dialogam entre si de maneira inesperada (ao menos pra mim) em um aspecto de suas narrativas: os papéis da maternidade e da paternidade. Por essa razão, resolvi escrever sobre os três em um mesmo texto. Tentarei ser o mais sucinto possível (e sem revelar muito sobre as reviravoltas do roteiro), mas já peço desculpas caso o texto fique um pouquinho (muito) grande.


Durante toda a projeção de Enterre Seus Mortos (2024), o filme não cessou de me surpreender. Nele, acompanhamos Edgar Wilson (Selton Mello), homem de pouquíssimas palavras que trabalha retirando cadáveres de animais (sejam de atropelamentos nas estradas ou mortes por causas mais “naturais” como animais atingidos por raios). Edgar Wilson (nome que ouviremos repetido incessantemente pelos personagens) tem como companhia em seu trabalho o parceiro Tomás (Danilo Grangheia), padre excomungado e alcoólatra, e Nete (Marjorie Estiano em atuação hipnotizante), sua chefe com quem mantém um relacionamento. O pano de fundo é Abalurdes, cidadezinha que se torna gradualmente decadente por conta do apocalipse iminente. Apocalipse? Sim: aparentemente, o mundo está prestes a acabar, sofrendo várias catástrofes ambientais (tempestades de pedras, por exemplo) e sendo cada vez mais dominado por seitas religiosas recém-criadas.

Sou fã de longa data de Marco Dutra (e de Juliana Rojas, sua dupla ocasional). Assim, por mais que já esperasse uma direção esteticamente impecável, a produção superou minhas expectativas. Observei através das redes sociais cinéfilas (Letterboxd e Filmow) que a recepção tem sido bastante divisiva. Ao menos, por parte do público. Inicialmente, isso me pareceu inexplicável, mas, refletindo melhor, fez sentido. Durante os capítulos que estruturam o filme, a narrativa trabalha com variados subgêneros do fantástico: da ficção pós-apocalíptica ao horror cósmico, flertando com a possessão demoníaca e com o giallo. Essa miscelânea de tons pode incomodar espectadores que prefeririam um desenvolvimento mais calcado em apenas uma linha narrativa. 

Aqui, quero destacar alguns aspectos específicos da trama. O primeiro é a personagem Nete e sua recusa completa em ter filhos. Quer dizer, é mais complicado do que isso: a personagem odeia crianças e verbaliza esse sentimento explicitamente. No universo da história, esse ódio adquire contornos lógicos, considerando a existência de uma epidemia viral originada a partir das crianças. Há, inclusive, uma ilha de isolamento para onde são enviados os menores de idade infectados e ouvimos notícias tenebrosas durante o filme, incluindo relatos de canibalismo. Contudo, a relação da personagem com a maternidade (ação esperada e cobrada indiretamente pela sua tia (Betty Faria), por exemplo) parece ser mais intricada do que essa justificativa epidemiológica sugere. O debate que o filme propõe sobre maternidade parece transcender o contexto apocalíptico imediato.

Edgar Wilson é assombrado por sonhos (ou pesadelos) recorrentes. Neles, acompanhamos uma procissão em frente a uma casa onde se encontram um casal e seu filho-criança. Nesses sonhos, também está presente uma menina de aparência cadavérica. Em determinado ponto do filme, revela-se o significado do sonambulismo do protagonista, da procissão, da menina e, o que mais importa para esta análise, a relação do protagonista com sua mãe. Durante suas crises sonâmbulas, nas quais se movimenta e fala sozinho ao ter esses sonhos, boa parte de suas falas dizem respeito a ela. Essa mãe torna-se uma figura ainda mais misteriosa que o personagem principal, já que nunca a vemos para além desses sonhos (nem mesmo em flashbacks), e as poucas informações sobre ela são compartilhadas em momentos tensos por outros personagens. Destaco, por exemplo, tudo que é revelado por Nete durante a sequência da iniciação dela na seita. Ao mesmo tempo, essa personagem (aparentemente) tão periférica e marginal ao centro dramático da produção acaba sendo responsável por determinar o destino de Edgar Wilson. Na verdade, o destino dele é definido em decorrência de suas duas "mães": a sanguínea e Nete. Assim como uma versão instrumental ao piano de My Heart Will Go On, sequência onde é necessário ver para crer. A figura da Mãe (com "M" maiúsculo, já que não sabemos nem o nome dessa personagem) e da maternidade (e paternidade, em menor grau) permeiam outros momentos da narrativa. Por exemplo, quando Mariana (Vittória Seixas), líder da seita, pergunta a Edgar Wilson por que ele e Nete ainda não têm filhos e se ele tem vontade de ser pai. 

Vale pontuar que não conheço o livro que originou o filme, Enterre seus mortos (2018), de Ana Paula Maia. Por conta disso, desconheço até que ponto os elementos destacados por mim estão presentes na história-base ou foram desenvolvidos no roteiro escrito a quatro mãos por Marco Dutra e Caetano Gotardo. De qualquer forma, fiquei com bastante vontade de lê-lo e já o coloquei na minha (extensa) lista de leitura das férias. Em tempo também: fiquei bastante feliz de ver nomes como Rodrigo Aragão e Joel Caetano presentes na equipe técnica.


Em Uma Batalha Após a Outra (2025), a Mãe e a recusa pela maternidade são responsáveis por colocar em movimento cada uma das peças do quebra-cabeça que formam o grosso da ação da nova produção do Paul Thomas Anderson. Na história (resumindo bastante), Pat Calhoun (Leonardo DiCaprio) e sua filha adolescente, Willa Ferguson (Chase Infiniti), são perseguidos em decorrência de ações realizadas pelo protagonista em seu passado quando integrava o grupo revolucionário French 75. Não sabia nada sobre o enredo e, preciso admitir, não sou o maior fã de Vício Inerente (2014), outra adaptação de Pynchon realizada pelo diretor. Ainda assim, achei o filme surpreendentemente divertido e engraçado. É lugar-comum falar sobre a direção meticulosa de PTA e, como sempre, ele não decepciona. Percebe-se que passou anos desenvolvendo essa adaptação. Os numerosos closes espalhados durante o longa-metragem são assombrosos, e o terceiro ato (especialmente a sequência de perseguição final) é tão primorosamente decupado que faz qualquer brasileiro se entristecer por não assistir ao filme em 70mm e na maior tela possível.

Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi a construção do prólogo. Com duração considerável, acompanhamos o modus operandi do French 75 em ação, o desenvolvimento da relação entre Pat e Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), a gestação de Willa e, ao fim, a dissolução do grupo revolucionário. PTA parte de questões políticas complexas, que possuem paralelos bastante evidentes com o presente estadunidense, para desenvolver uma pseudotragédia satírica. Durante o filme, é perceptível a busca do realizador em não cair facilmente em discursos reacionários e/ou conservadores na estruturação do roteiro. Contudo, a personagem de Perfidia, para mim, acaba sendo um dos elementos (quiçá, o elemento!) que mais carecem de desenvolvimento.

A personagem assombra a narrativa como um fantasma. No entanto, ao dar voz a ela apenas durante o prólogo e o epílogo, o filme reprime seu desenvolvimento. Compreendo que, nessa sátira onde todos os personagens são (à primeira vista) unidimensionais e apenas cumprem um papel (seja do "revolucionário" maconheiro e conspiracionista ou do vilão e sua gangue que materializa todos os discursos negativos), uma personagem como Perfidia destoaria por exigir que sua personalidade dual fosse tratada com um tom para além do humor utilizado em todos os outros. Ao não fazer isso, a produção sublinha (consciente ou inconscientemente) o papel de "mãe relapsa" de Perfidia, aspecto que não ganha desenvolvimento algum para além do epílogo que em breve discutirei.

Essa "falta" de desenvolvimento torna-se ainda mais contrastante quando comparada com outros aspectos da personagem que se tornam interesses narrativos centrais como a maneira como Pat mentiu para Willa sobre o passado da mãe e como essa "verdadeira natureza" de Perfidia retorna recorrentemente à história. A ausência da personagem pode ser resultado do desinteresse do realizador em complexificar alguns desenvolvimentos como, por exemplo, todo o arco envolvendo a paternidade no filme, que, embora melhor desenvolvido, também permanece limitado até certo ponto. 

O momento em que essa mudança de tom provocada pela personagem fica mais evidente é, sem sombra de dúvidas, durante o epílogo. Nele, ouvimos, através de voz over, a leitura de uma carta aparentemente enviada por Perfidia à filha. Caso optemos por acreditar na veracidade dessa carta, a personagem e todas as contradições inerentes às ações tomadas por ela durante o prólogo são pacificadas; e o filme decide fazer isso através da chave modal do melodrama. Caso optemos por não acreditar na veracidade dessa carta, lembrando de seu conteúdo apaziguador e de que Pat já havia mentido anteriormente visando preservar a dignidade de sua ex-companheira, mais uma vez a ausência da personagem foi escolhida narrativamente.

É curioso pensar que a ausência de Perfidia, assim como suas recorrentes menções, pode ser responsável pelos aspectos mais conservadores da narrativa. O fato de Pat estar solteiro (para além de seus traços "negativos" salientados na trama), quase como uma eterna espera pela mulher de sua vida, remete ao espelhamento das personagens femininas em inúmeros romances tradicionais. Esse aspecto poderia ter um caráter ainda mais subversivo se fosse confrontado diretamente pela própria Perfidia em algum momento. Da maneira como é desenvolvido, a solteirice de Pat e sua dedicação à paternidade (por mais ineficaz que seja nessa função) acabam sendo colocadas em oposição binária a todo o desenvolvimento envolvendo o Coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn). Escolhas são perdas, e senti bastante a falta de Perfidia ao refletir sobre o filme. Gostaria que Teyana Taylor pudesse ter atuado para além do tropo de femme fatale. Uma pena, porque me diverti bastante com a produção.


Já Terror em Shelby Oaks (2024) poderia ter se beneficiado bastante do meu desconhecimento de todos os elementos de sua narrativa (e se beneficiou em parte). Contudo, ainda assim foi a produção que menos me agradou dentre esse trio. E olha que eu só queria ver um filme de terror no dia 31 de outubro, sem grandes expectativas. No filme, acompanhamos a busca de Mia Brennan (Camille Sullivan) por sua irmã mais nova, Riley (Sarah Durn), desaparecida há doze anos. O filme tem óbvias inspirações em A Bruxa de Blair (Daniel Myrick, Eduardo Sánchez, 1999) e, em menor grau, no cult australiano O Segredo do Lago Mungo (Joel Anderson, 2008). Nessa produção, mais do que nas anteriores, a figura da Mãe e da maternidade está intrinsecamente ligada à premissa da história e sua conclusão. Por conta disso, não entrarei em tantos detalhes.

Tudo que conhecia sobre o filme eram as imagens postadas no Twitter da Neon há um tempo (abaixo). Foi a primeira (e única!) vez que ouvi falar sobre Shelby Oaks, mas esteticamente me interessou e fui na cara e na coragem para a sessão.

“Eles todos apenas ficaram ali parados”.
“A semente será semeada”.
“Tudo em meio à morte e à podridão”.
"Você deveria ter tanto orgulho dela".

Não conhecia o diretor (e roteirista), Chris Stuckmann, mas descobri após a sessão que ele é um popular youtuber de cinema e esse foi seu primeiro longa-metragem. Isso conseguiu esclarecer parcialmente para mim como o prólogo, a parte mais efetiva do filme, foi desenvolvido pela mesma pessoa que realizou todo o resto. Stuckmann, assim como sua corroteirista Samantha Elizabeth, parecem entender de maneira bastante efetiva que o fenômeno A Bruxa de Blair nunca conseguiria se repetir contemporaneamente, ou ao menos não da mesma forma. No prólogo de Shelby Oaks, acompanhamos um documentário sobre o sumiço de Riley e o resto da equipe de um canal sobrenatural do YouTube. Esse começo, mescla de found footage e pseudodocumentário, consegue apresentar toda a narrativa e construir uma atmosfera "horrorífica" que vai sendo gradativamente desconstruída pela própria produção. A mistura de proporções de tela (gravações, vídeos do YouTube, comentários etc.) e suportes de gravação (videoteipe e digital), somada à insistência da produção em tratar tudo com a máxima seriedade, prepara o espectador para algo que a narrativa nunca consegue entregar satisfatoriamente.

Quando o filme, em um corte lacaniano audiovisual, transforma-se dessa mescla de subgêneros para um horror tradicional, perde bastante força, na minha opinião. Stuckmann se prova (relativamente) eficiente na construção de tensão. Contudo, a maneira com que idealiza essas sequências, através da soma de pequenos elementos ou ações que provocam o unheimliche freudiano no espectador, acaba demonstrando sua maior irregularidade (ao menos neste filme): a entrega (ou payoff, em linguagem “roteirística”). A necessidade que o realizador parece possuir de surpreender continuamente os espectadores faz com que ignore tanto a verossimilhança (o que é problemático, mas consigo relevar) quanto o desenvolvimento de seus próprios personagens (o que, para mim, é um dos pecados capitais ficcionais).

A sequência final tenta construir um grande momento dramático, mas é ineficaz exatamente por não ter dado o devido peso a vários acontecimentos que ocorreram anteriormente. Ao transformar a reviravolta final no propósito de sua obra, Stuckmann abre mão conscientemente da humanidade de cada um de seus personagens que havia sido construída de maneira eficiente em seu caráter pseudodocumental nos minutos iniciais. Chega a ser surpreendente que um filme com uma perceptível falta de humanidade e que aciona o melodrama de maneira tão tacanha tenha tido produção executiva de Mike Flanagan. Sorte a minha que só descobri isso nos créditos iniciais da produção, o que não criou expectativas prévias. De outra forma, eu teria sido bem mais crítico.

Ao mesmo tempo, entendo ser bastante improvável que alguém repita a trajetória (e o talento) de um Kogonada.

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