O Complexo de Skywalker
Críticas GeraisDoutor, o senhor não faz idéia do esforço que é respirar dentro deste balde. E cada sessão aqui me custa uma recarga inteira de suporte de energia, e você continua me perguntando sobre “minha relação com a autoridade”? Doutor, eu sou a autoridade! E e, e eu a estrangulo com a Força quando ela me irrita. E não, isso não tem nada a ver com "estrangular o peru"; eu sei como vocês freudianos funcionam.
Tá, tá, eu sei — controle da raiva, mecanismos de defesa, repressão do impulso agressivo... eu já ouvi tudo isso antes. E já tentei meditar, acredite. Aqueles Jedis ficavam ali horas sentados, olhando pra parede; e eu lá, o sabre de luz coçando de impaciência, e pensando: “Quando a gente vai fatiar uns siths, afinal?”
Ah, doutor, você teria amado a ordem Jedi; um bando de homem reprimido emocionalmente, tudo vestindo batas combinando, fingindo que não sentem nada ali debaixo dos saiotes enquanto tentavam controlar todo o destino da galáxia com aquele papinho kumbaya; era basicamente um kibutz com espadinhas.
Mas você quer que eu fale da minha infância; claro, vamos lá: Tatooine. Pusta deserto; calor de fritar um droide. Eu era escravo, minha mãe era escrava, e eu tirava racha em uma lava-louças voadora pra ganhar uns trocados. Eu era uma criança solta no mundo, sem supervisão, sem proteção. Típico. Mas sabe o que é pior? Eu gostava disso. Sim, doutor, eu gostava de me sentir útil. De estar sempre fazendo algo.
Mas minha mãe? Ela era... um pouco demais. Gentil demais, devota demais, e com aquele olhar como se eu fosse o centro do universo. E sabe do que mais? Eu fui o centro do universo, por um tempo. O escolhido! O garoto que traria equilíbrio à Força! Ninguém me contou que “equilíbrio” significava um monte de criancinhas fatiadas como sashimi, mas enfim.
E então: Qui-Gon Jinn, o missionário com cara de quem vende incenso e escuta Jethro Tull no talo. Chegou do nada, me olha uma vez e diz: “O garoto tem um nível de midichlorians altíssimo.” Midichlorians! Doutor, imagine um exame de sangue que determina seu destino espiritual! É como descobrir que você é o Messias porque seu nível de colesterol é baixo.
E aí, pronto: um Jedi me leva embora, me separa da minha mãe, promete que tudo vai dar certo - uma criança com um complexo materno tão grande que daria para estacionar a Estrela da Morte dentro…
O senhor é pai? Então talvez entenda: tudo em mim congelou quando ela ficou para trás. E quando voltei anos depois e encontrei só a carcaça dela... bom, o senhor sabe o resultado clínico: psicose aguda, massacre étnico, início de regime totalitário. Uma resposta perfeitamente natural ao luto, convenhamos.
Mas aí: o momento da “queda”, como dizem por aí. Quando deixei de ser Anakin e virei Vader. Não foi um grito, doutor. Foi um suspiro. Um “tudo bem, que seja”. Uma entrega cansada. Eu já estava exausto de ser bom. Já tinha tentado, falhado, tentado de novo, e toda vez a mesma coisa. Sabe doutor, eu só queria... controle. Controle total. O senhor percebe o humor trágico disso? Um sujeito que quer controlar a morte e acaba passando a vida inteira preso a uma máquina para continuar respirando. É quase engraçado.
A primeira vez que vi meu reflexo com a máscara, eu pensei: “Bom, pelo menos ninguém mais vai ver mais minha cara de tristeza” Foi quase libertador: esconder o rosto, a respiração, o olhar. É o sonho de todo paciente neurótico.
Mas então percebi que o som do meu próprio respirador ecoava em tudo. KHOOO... PHHH. Uma trilha sonora de culpa. Eu virava o corredor da Estrela da Morte e dava pra ver os oficiais suando. Ok, claaaaaro, eu matei um ou outro, mas cada estrangulamento tinha um toque de carinho, doutor. Era minha forma de dizer “Você me desapontou, mas eu ainda me sinto próximo de você, amigão.”
Mas então veio ele - o garoto. Até que parecido comigo, a mesma carinha loira socável de fã de Coldplay que eu tinha quando era criança. Um pouco mimado - tinha que ver o tanto que chorou da última vez que conversamos. "Você não é meu pai!" mimimi, "eu não pedi pra nascer" mimimi, “ai! minha mão!" mimimi; o mesmo papinho clichê adolescente de sempre - pff! Na idade dele, eu já tinha perdido as duas pernas e não reclamei tanto assim.
E o pior? Agora ele se lançou nessa campanha pra redimir meu nome, como se um press release bem escrito e aparição em meia dúzia de podcasts resolvesse um passado genocídio.
Bom, até que na verdade…
Enfim. Eu apenas observo (com certo orgulho, na verdade) enquanto ele tenta salvar o que restou da galáxia. Batalha perdida, claro; mas sei lá: o garoto é melhor que eu. O que é insuportável, mas também... reconfortante, em um certo nível. E talvez seja isso a verdadeira função de um pai: admitir que o filho te superou, e resistir à vontade de estrangulá-lo por isso. A gente tem planos de se encontrar no mês que vem em algum lugar ali perto de Endor...
O que? Se eu acredito em perdão? Depende de quem está segurando o sabre. Ha-Ha.
É, eu estou ciente da ironia: o homem mais poderoso da galáxia, o genocida supremo, deitado no divã, falando da mamãe, de carência. E o senhor fica ai, anotando tudo, me julgando... Você acha que eu não sei? Que eu não sei o que todos pensam? "Pobre bebê Anakin, perdeu a mamãe, o menino midichlorians"... CLARO QUE NÃO ERAM midichlorians! Você acha que eu não ouvia as histórias em Tatooine? Que os caras nos botecos chamavam ela de Shmi Skymounter? Claro que eu comprei a ideia, quando era criança, de que tinha sido gerado por combustão espontânea, doutor - melhor isso a saber que eu provavelmente era filho de um estivador desdentado qualquer trabalhando pra um Hutt no deserto. O menino emo jedi. O cabeça quente. E agora, o chefe distante, uuuh ele vai me enforcar uhhh sabe quantas vezes alguém me chamou pra um café naquela Estrela da Morte maldita? Sabe como é embaraçoso ser eu em TODO AMIGO SECRETO DA FIRMA? Ter que comer sozinho todo dia? E nunca nunca
NUNCA
ter sido o funcionário do mês?
E E
...
...Doutor? *suspira*
Será que você pode abrir um pouco essa janela? É que esse capacete embaça quando eu choro…




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