Vale Tudo: no final, valeu TUDO mesmo
NarrativaNo final da década de 80, o Brasil vivia a redemocratização e o cenário político era agitado. Crise econômica, inflação, escândalos e corrupção eram notícia todos os dias. É nesse contexto que nasce Vale Tudo. Diferente do que normalmente acontece, a ideia inicial dessa novela não veio de uma situação dramática, mas sim de um tema: ética. Gilberto Braga se propôs a responder à pergunta “Vale a pena ser honesto num país em que todo mundo é desonesto?”
A resposta viria por meio de um drama entre mãe e filha, inspirado no filme Mildred Pierce (1945), em que uma mãe trabalhadora tenta ascender socialmente enquanto lida com a filha ambiciosa e inescrupulosa, que prefere usar atalhos para sair da pobreza. Raquel e Maria de Fátima atualizaram essa narrativa para o Brasil dos anos 80. Era o melodrama em seu estado puro, o entretenimento usado para espelhar os problemas do país.
Não foi por acaso que a Globo escolheu fazer o remake de Vale Tudo em 2025. A decisão de produzir uma nova versão da “novela das novelas” veio como uma homenagem aos 60 anos da emissora e a uma obra considerada uma das maiores da teledramaturgia brasileira. Não só pelo sucesso que fez na época, mas também pela dramaturgia complexa e pelos personagens icônicos. O texto de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères não dá ponto sem nó.
Odete Roitman nasceu para discutir ética. Ela é o retrato de uma elite preconceituosa e corrupta, que vê o Brasil como uma colônia de onde se extrai riquezas pra levar pra fora, uma mãe dominadora que criou filhos fracos e dependentes. O personagem Ivan, que quase não teve arco narrativo na versão de 2025, nasceu para mostrar alguém que vivia na corda bamba entre ser honesto e desonesto. Na versão original, todos os personagens se desenvolvem de acordo com a premissa da novela e, no final, têm seus arcos encerrados de um jeito ou de outro.
Tendo uma obra-prima como base, é difícil imaginar o que levou Manuela Dias a tentar inventar a roda. Quando Bruno Luperi adaptou Pantanal, houve quem o criticasse por manter muito da obra original, mas hoje, depois do que vimos em 2025, é impossível não reconhecer a superioridade do que foi feito ali. Com respeito e profundo conhecimento do texto original, Bruno conseguiu atualizar o espírito do tempo da narrativa sem descaracterizar os personagens e os arcos principais, e com isso apresentou uma novela clássica a uma nova geração. Mas o mesmo não se pode dizer de Vale tudo. Quem assistiu a novela em 2025 não conheceu Vale Tudo de 1988.
Para entender a dimensão simbólica do que Vale Tudo representa, é preciso lembrar o papel da televisão na formação da cultura brasileira. A televisão, com seus 75 anos de existência, faz parte da construção da identidade nacional. Toda comunidade convive com narrativas, lendas e histórias que ajudam a compor um universo simbólico comum. Nos países europeus, a literatura cumpre esse papel. Nos Estados Unidos, o cinema construiu a cosmovisão do que é ser americano. No Brasil, as referências compartilhadas pelas pessoas vêm da televisão. Quando o rádio e a TV começaram a difundir narrativas ficcionais, a maioria da população era sequer alfabetizada. Compreender isso é essencial para entender a importância de grandes obras como Vale Tudo, elas são marcos na formação da nossa identidade enquanto brasileiros.
Odete Roitman, Tonho da Lua, Nazaré Tedesco, Sinhozinho Malta, Branca Letícia, Bebel, Félix e Tufão não existem, mas habitam o imaginário popular e nos ajudam a entender nosso país e a nós mesmos. A telenovela formou o nosso vocabulário emocional, nossos gestos, nosso senso de humor e de ética. Por isso, a televisão é, ou pelo menos deveria ser, levada a sério.
Fazia tempo que um último capítulo de novela não parava o Brasil. Nesta sexta-feira, dia 17, Vale Tudo conseguiu reunir pessoas em frente à TV, criando uma experiência coletiva e um clima de Copa do Mundo que há muito tempo a ficção não alcançava. Todo mundo queria saber o que aconteceu com Odete Roitman, e muita gente vibrou, gritou e comemorou quando a matriarca levantou-se em um suspiro de seu saco preto do IML, ainda que tenha sido a cena mais tosca já vista na televisão brasileira desde o fim do Casseta & Planeta Urgente.
O que explica o fenômeno? Manuela Dias tinha em mãos um tabuleiro criado por um mestre, e ainda assim acabou jogando um jogo ruim. Por sorte, as outras peças do tabuleiro eram boas. Débora Bloch soube conduzir as incoerências de Odete com humor e carisma. Se você reparar bem na fatídica cena final, vai perceber que ela não se leva a sério. Diva, com muitos episódios de TV Pirata nas costas, salvou esse e outros momentos com uma canastrice irresistível.
E já que o assunto é canastrice, César e Olavinho conquistaram o coração do público e roubaram a cena até do suposto casal protagonista, Ivan e Raquel, que, na seriedade dos personagens estritamente dramáticos, não conseguiram cair nas graças de quem assistia.
Vale Tudo conseguiu brilhar como comédia, mas não como drama. Os personagens que tinham problemas reais não se sustentaram: Heleninha foi esquecida, Afonso e Solange se tornaram insuportáveis, Ivan e Raquel não tiveram arco dramático algum. Mas Consuelo, com sua peruquinha e sotaque exagerado, essa sim conquistou o Brasil.
Acontece que ficção não é bagunça. Uma obra que se propõe realista assume o compromisso de entregar uma história minimamente lógica ao público, e nisso Manuela Dias falhou. Sua tentativa de ser autoral resultou em tramas que não davam em lugar nenhum, discussões sem pé nem cabeça e um último capítulo que não faz jus aos arcos que a história construiu. Sua busca por assinatura pessoal dissolveu a unidade da obra e o resultado final foi uma novela cheia de erros grotescos.
Alguns personagens, como Heleninha, simplesmente não tiveram final. Os casamentos, típicos de final de novela, foram longos e ocuparam um tempo de tela que poderia muito bem ter sido usado para explicar a ressurreição de Odete, mal escrita e incoerente do começo ao fim. O remake, que deveria ser uma homenagem ao gênero, acabou por ofender quem realmente gosta e consome telenovelas.
Vale Tudo nasceu perguntando se vale a pena ser honesto no Brasil. Trinta e sete anos depois, o remake respondeu: não vale. Todos os personagens que tiveram atitudes corruptas terminaram bem, enquanto os mocinhos desapareceram no limbo.
Na tentativa de salvar a temática, o público ainda foi submetido a uma cena longuíssima em que Ivan e seu pai discutem o futuro do Brasil, em meio a uma mensagem piegas de positividade e esperança. Mas não é assim que se transmite uma ideia.
O problema não é o remake ter evitado uma lição de moral. A boa ficção não precisa punir nem redimir ninguém, só precisa seguir a lógica interna que ela mesma cria, não vale colocar qualquer coisa para agradar o público e os patrocinadores. O que se perde em Vale Tudo (2025) é a coerência do enredo, e a “novela das novelas” termina sem saber o que, afinal, queria dizer.





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