Sonhos não afundam - as lições no amor de Titanic

Narrativa

O que nos vem à mente quando pensamos em relacionamentos? Certamente, nossos namoros, casamentos e até mesmo aquelas paixões da época de escola. Um amor não correspondido nos leva a refletir sobre o passado e o que podíamos ter feito diferente para finalmente conquistá-lo. Por outro lado, existem situações em que essa reflexão nos leva rapidamente ao caminho contrário, em que agradecemos de pé junto por superarmos aquela fase dolorida, já que algo muito melhor nos espera no futuro. 

Já um amor que sabemos que é real, é a coisa mais gratificante que podemos sentir em nossas vidas. Saber que uma pessoa nos faz tão bem a ponto de nos deixar dispostos a mudar hábitos a fim de aprimorar o relacionamento, e até mesmo nos transformar numa pessoa melhor, é indiscutivelmente uma proeza humana de dar orgulho. Além disso, compartilhar e construir histórias com alguém que encontramos durante a jornada da vida nos faz querer viver intensamente cada segundo que ainda temos nesse mundo juntos. 

Para muitos, isso nem sempre é o que acontece. Imprevistos ocorrem. Mudanças de rumo e objetivos de vida são alterados. Paixões são contidas e podem diminuir com o passar dos anos, indicando que, talvez, aquela forma de amor não foi feita para durar eternamente entre aquelas duas pessoas. Mas isso não é sinal de fracasso amoroso, ou mesmo de se pensar que o tempo passado juntos não valeu a pena. Foi certamente uma forma de aprendizado, seja lá quando ele será realmente despertado e absorvido por nós. Com Jack, Rose e o Titanic, eu aprendi muito sobre as camadas do amor.

Were Rose and Jack Dawson real people? Titanic's real life inspiration  explained - Dexerto

Assisti ao filme apenas aos 17 anos. Vi relances na infância, durante as infinitas maratonas que minha prima mais nova fazia, vendo e revendo o filme inúmeras vezes, em looping. Foram apenas alguns anos após começar a gostar de cinema que decidi dar uma chance.   

É impressionante a capacidade do filme de nos mergulhar em toda a história sendo contada. Já sabemos o destino do infame navio, e o vemos no fundo do oceano já nos primeiros minutos do filme. Mas a magia do amor e das relações humanas construídas ao longo de quatro dias a bordo de um colosso de ferro, com todas as suas camadas físicas e sociais, nos faz entrar nessa viagem junto aos personagens. E, como James Cameron queria, nos tornamos íntimos de Jack Dawson e Rose DeWitt Bukater.

Rose começa como a típica mocinha de família rica que está com a vida feita: vai casar com o milionário Cal nos EUA e enriquecer ainda mais sua família. Porém, ao longo do filme, a conhecemos melhor, e vemos sua paixão pelas coisas, seu carinho com os outros e sua sede por viver tudo aquilo que uma menina em sua posição nunca pode experienciar. Além disso, é claro desde o início que Cal não é com quem Rose quer compartilhar o resto de sua vida. Descobrimos também a real situação financeira de sua família, e que sua mãe faria de tudo para manter seu status social, mesmo que isso custasse a felicidade de sua filha.

Do outro lado do navio, conhecemos Jack, um artista de rua sem casa ou emprego fixo que vai para onde o vento o leva, enfrentando um problema por vez e se adaptando a cada lugar que passa. Conseguindo bilhetes de última hora ao navio, Jack se maravilha com o que está prestes a vivenciar, mesmo alojado em cabines de terceira classe durante a viagem. Logo de cara, nos simpatizamos com as motivações de Jack e torcemos para o seu sucesso. 

É quando os caminhos desses dois personagens se cruzam que a história começa de verdade. É com eles que exploramos o navio de ponta a ponta, nos familiarizamos com o ambiente em que estamos, e ao mesmo tempo, conhecemos mais de suas vidas, desejos e ambições. Assim como Jack e Rose, nos apaixonamos por onde estamos, as experiências únicas de estar num navio em alto mar com inúmeras culturas a bordo, e a companhia um do outro nos fazem querer parar no tempo, e, assim como minha prima com o filme, viver aqueles dias a bordo em looping eternamente.

A primeira hora do filme é tudo o que mais queremos em um relacionamento, em que encontramos uma razão para viver feliz e alguém para compartilhar o nosso presente e futuro. Apesar das dificuldades que os dois encontram para ficarem juntos, as diferenças sociais, familiares e financeiras não impedem o amor de prevalecer, e Jack e Rose sabem que tudo o que querem é estar lado a lado. O casal compartilha seus desejos e incita um ao outro a seguir seus sonhos, e vemos com clareza em seus olhos a disposição de ambos de abrir mão de suas vidas atuais para viverem juntos. 

Jack quer produzir suas obras de arte com uma mulher que ama em mente, sempre o inspirando a ser cada dia melhor; Rose quer degustar os prazeres da vida, aprender a cavalgar, seguir os passos artísticos de quem a inspirou em dar o primeiro passo e tomar riscos, e se tornar uma atriz, ou uma dançarina, ou uma escultora, ou tudo aquilo que a arte pode providenciar. O que era uma paixão temporária, se torna um amor infinito.

É com o acidente do Titanic com o iceberg que as coisas mudam. Como todo relacionamento, existem momentos de turbulência. Coisas fora do controle definem o caminho do casal. Sabemos o destino dos personagens apresentados no filme, e principalmente a despedida de Jack e Rose. Há quem diga que tudo acabou ali. Mas aquilo não era somente o fim, e sim o início de algo. De uma vida de alguém que foi transformada por sua experiência naquele navio. Jack não deixou seus sonhos e o seu amor para trás naquela noite, mas se manteve em algo que está a todo instante dentro de Rose, aquecendo-a e iluminando-a durante sua longa trajetória de vida. Foi graças ao amor de Jack naqueles quatro dias a bordo do Titanic que vemos todas as realizações de Rose nos 84 anos seguintes. A coragem que teve de abandonar tudo e seguir o que um dia planejavam fazer juntos foi o que a manteve motivada para, no fim, aprender a cavalgar, atuar, dançar, esculpir, e voltar a ser feliz.  

Assim como o iceberg que os separou, o amor tem muito a oferecer que não vemos na superfície. O aparente é uma pequena parte do todo, e o que está abaixo, apenas quem vive o amor, pode sentir. O melhor relacionamento do cinema, afinal, não é aquele que vence o tempo, mas o que o transforma. Como Jack e Rose, há amores que vivem para sempre. Não porque duram, mas porque nos fazem continuar acreditando.

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