“Vá e Veja”: o que pode um bebê?
Críticas GeraisVá e Veja (Elem Klimov, 1985)
por Leandro Afonso
Para quem desfruta do cinema hegemônico feito nos anos oitenta, a adolescência é retratada dentro de um certo padrão. Filmes como Clube dos Cinco (1985) e Curtindo a Vida Adoidado (1986), ambos dirigidos por John Hughes, formaram gerações e até hoje são reinterpretados em longas como O Mito Americano da Festa do Pijama (David Robert Mitchell, 2010) – na chave do comedimento e da desilusão – e Fora de Série (Olivia Wilde, 2019) – que abraça corpos e sexualidades mais plurais. As tramas de todas essas obras partem de uma mesma base: personagens vivem suas explosões hormonais esponjosas, absorvendo e potencializando as reações a desejos sexuais, desilusões amorosas, encaixes e desencaixes socioeconômicos, tudo dentro de um contexto minimamente digno. Ninguém parte da ou atinge a mais completa desumanidade. Na mesma década de oitenta, porém, é lançado um filme que mostra um adolescer radicalmente distinto. Não nos referimos a realidades estadunidenses, mas sim a um recorte predominantemente (mas não só) militar do país que mais sofreu baixas na Segunda Guerra Mundial: a União Soviética – mais especificamente como integrante dela, Belarus. O filme em questão é Vá e Veja (Elem Klimov, 1985).
O início do arco do personagem principal é, em certa medida, bem similar a vários desses coming-of-age citados na introdução. Fliora (Aleksey Kravchenko) começa sua trajetória brincando, em um faz-de-conta com alguém de sua faixa etária. Posteriomente, troca olhares que se mostram mais ambíguos com uma jovem Glasha (Olga Mironova) que, contudo, parece interessada em um rapaz mais velho. Incontáveis seres desejantes que ultrapassaram a puberdade viveram situações parecidas. Os acontecimentos que transcendem esses descritos acima, contudo, deixam evidentes dois pontos de Vá e Veja. O primeiro e mais óbvio é que assistimos a um filme de guerra; o segundo é que esse longa, ligado a um gênero já ali exaustivamente explorado, traz uma difícil prova de humanidade em um contexto de medo, horror e ódio.

Fliora e Glasha compartilham uma certa tensão libidinosa, sublimada por ele. Imaturo do ponto de vista sexual, o adolescente se considera pronto mesmo é para o combate. Quando ambos escutam sons que parecem de castores, os roedores se mostram, na verdade, presentes alemães que caem do céu: bombas. É através primeiro do som e depois da imagem, que percebemos um efeito daquele horror, do que esse adolescente pode ter medo concretamente agora. Ele sente na pele.
A relação entre Glasha e Fliora cresce no espaço de uma violência nazifascista cada vez mais brutal. As cenas da vaca, das queimaduras, das crianças, dos filhos, formam um assustador conjunto que parece mergulhar o espectador em um assombro coletivo que o leva à pergunta: para onde e até onde esse filme vai?
O que pode um bebê?
Quem pode matar uma criança, dirigido pelo uruguaio Narciso Ibañez Serrador, é uma fantasia na qual crianças têm super poderes para se vingar de tragédias coletivas-históricas causadas, principalmente, por adultos em guerra. O Fliora de Vá e Veja, bom lembrar, é um adolescente, que tem irmãs crianças, que convive com crianças, e que precisa pegar em armas porque adultos decidiram entrar em guerra. Nestes espaços, os maiores medos são postos à prova tanto individual como coletivamente: civis, famílias e comunidades inteiras são vitimadas.
Pode-se dizer que guerras são sempre sinônimos de um certo terror. Mesmo aquelas que desejaram merecidamente uma independência, mesmo aquelas que buscaram resistir bravamente contra uma invasão imperialista, terminaram com mortes de inocentes. Cinematograficamente, porém, essas guerras às vezes são destacadas por sacrifícios glorificados que costumam celebrar estratégias de combate, ações de força e coragem de indivíduos específicos. O terror se torna o ponto de partida inevitável, a partir do qual se elegem os grandes representantes, aqueles homens que são mencionados em ruas, hinos e aulas de história. Essas obras de guerra, muitas vezes, funcionam como propaganda militar e mitificam personagens. E os civis? E os coadjuvantes? E os nomes de baixa patente?
Vá e Veja se interessa mais por essas perguntas e pessoas. A catarse coletiva é liderada não por um prócer militar – tão presente em um certo cinema (sobretudo, mas não só) estadunidense, que poderia ter aqui um grande oposto em tempos de guerra fria, com um menor de idade como um grande herói –, mas por um protagonista que sequer deveria ter tantas responsabilidades.
Fliora vivenciou atrocidades que incluem o massacre indiscriminado de crianças e o estupro como arma de guerra: está naturalmente embrutecido. Seu ódio perante o nazifascismo é completamente compreensível. Nesse contexto, o filme propõe a seu protagonista um acerto de contas simbólico.
O clímax é ao som de nada menos que Lacrimosa, de Mozart, compositor austríaco, justamente da mesma nacionalidade Hitler, o principal mentor ou apoiador de todas as atrocidades vistas no filme. O desfecho propõe uma busca pela reescritura histórica, para desviar daquele final em que tanto se mata e tanto se morre. Esse caminhar gradual rumo aos anos anteriores faz o Führer pouco a pouco perder a idade e o poder. Hitler vai voltando aos tempos em que era um adolescente como Fliora, uma criança como as irmãs do protagonista, um bebê como tantos que foram queimados vivos. Nesse instante, Fliora paralisa. Diante de um austríaco perverso, ao som de um austríaco genial, ele não consegue continuar.
Todo o ataque à covardia que o adolescente presenciou encontra um teto: até o mais desumano superpopular foi, em algum momento, um indefeso recém-nascido. Nem Fliora, que presenciou toda aquela selvageria, toda aquela monstruosidade, acredita que um bebê merece um tiro. Vá e Veja impõe um limite explícito para a crueldade humana e para a vingança. Fliora tem uma crise de consciência que Hitler não teve. O trauma que o protagonista presenciou faz com que ele não vá até as últimas consequências: eis um final humanizado em um lugar muito singular e que suscita incontáveis questões. O que fazemos para evitar que voltemos a sentir o medo e o horror de seres humanos embrutecidos em entranhas tão profundas? Como lidamos com as violências (estruturais, conjunturais, pontuais) que chegam a Flioras graças a mentalidades imperialistas? Por fim, com que cuidado estamos tratando os adultos de amanhã?













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