"Alien: Earth": Que mundo estranho...
Críticas GeraisA série expande o universo de Ridley Scott, mas não sabe exatamente para onde levá-lo.
Não tinha visto nada. Sinopse, trailer, nada. Só sabia que Alien: Earth (EUA, 2025 - ) seria a primeira série de televisão do universo Alien. E também sabia que o xenomorfo que aterrorizou os tripulantes da nave Nostromo no revolucionário Alien - O 8º Passageiro (1979), dirigido por Ridley Scott (produtor executivo desta série), viria parar no nosso planeta pela primeira vez. E que mundo estranho eu caí já no primeiro episódio — um mundo que tem muito de Blade Runner (1982), a outra criação célebre de Ridley. É 2120, dois anos antes dos eventos de 8º Passageiro, e os governos colapsaram. Os continentes agora são feudos controlados por megacorporações como a Weyland-Yutani, dona da Nostromo e de uma nave de pesquisa que neste momento retorna à Terra trazendo espécies alienígenas variadas. E assim como no filme, a coisa termina em desastre. A nave entra em rota de colisão com Terra e cai no território da Prodigy Corporation, principal rival da Weyland-Yutani, controlada pelo insolente Boy Kavalier (Samuel Blenkin).

A despeito de qualquer bom princípio, Kavalier anda fazendo experiências em seu refúgio numa ilha: para além de ciborgues (humanos com partes robóticas) e sintéticos (androides com a aparência humana), ele descobriu como transplantar a consciência humana para um corpo artificial. Wendy (Sydney Chandler), é a primeira dos chamados “híbridos”: antes uma adolescente em estado terminal e agora praticamente imortal com o novo corpo, ela só quer reencontrar Hermit (Alex Lawther), o irmão que deixara para trás.
Assim como em Fargo (2014 - ), série derivada do filme dos irmãos Coen, o criador Noah Hawley expande Alien em vários núcleos de personagens, que pouco a pouco assumem importância e agendas próprias. Além de Wendy, outras crianças que também tiveram suas mentes transplantadas (dentre elas, o ótimo Adarsh Gourav, revelado em O Tigre Branco) tentam entender o que são — humanos, máquinas, crianças, adultos, ou algo além. Kirsh, o braço direito sintético de Kavalier, é um enigma (em mais uma maravilhosa atuação para a coleção de Timothy Olyphant): sempre muito intimidador e resignado, é difícil saber a quem pertence sua lealdade. Já Morrow (o excelente Babou Ceesay), ciborgue da nave que caiu, segue uma diretriz bem clara: fazer de tudo para proteger a carga alienígena. E isso inclui impedir que Kavalier tome posse delas agora que elas estão no território da Prodigy.

Se parte do que torna os seis primeiros episódios tão pressagiosos e até sinistros está no horror que a concepção visual dos aliens provoca — e a série apresenta outras espécies interessantíssimas além do xenomorfo —, por outro lado, Alien: Earth baseia essas doses homeopáticas de suspense na montagem, que sobrepõe imagens quase abstratas, e na trilha sensacional de Jeff Russo, para falar do mal-estar que advém deste tempo: de um mundo cada vez mais distópico com o avanço da inteligência artificial, em que a interferência das corporações na vida privada se torna maior, onde o lucro e o obscurantismo se sobrepõem à ética e aos direitos básicos, e em que o poder é ainda mais ultraconcentrado. Um mundo, enfim, em que o conceito de humanidade é ainda mais distorcido para fins espúrios.
É uma pena que os dois últimos episódios, em especial o oitavo, não levem a frente esse clima perturbador: pelo tom da direção que soa errado, e pelo fato do roteiro fazer com que os personagens percam seus objetivos, fiquem menos espertos (ou muito poderosos) e batam em teclas já muito bem debatidas nos episódios anteriores e que mereciam mais complicação em vez de mera repetição. Quem é presa e predador? Quem se alimenta de quem? Quem está no controle de quem? A impressão é que faltou coragem para levar essas perguntas — realmente — às últimas consequências.




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