Vale Tudo pela crítica?

Aspectos Socioculturais

Na reta final, Vale Tudo estreou com expectativas altas e audiência robusta: registrou picos de 35 pontos no IBOPE em Recife e 32 no Rio de Janeiro nos momentos de maior repercussão. Para o atual cenário da televisão aberta, são números expressivos, capazes de colocar a novela no radar das discussões culturais. Ainda assim, o remake se tornou alvo de uma enxurrada de críticas — sobre inserções publicitárias, arcos mal desenvolvidos, falhas de continuidade, atuações contestadas e escolhas criativas vistas como desastrosas. O que chama ainda mais a atenção, porém, não é apenas o teor dessas queixas, mas de onde elas vêm: muitas emergem de espectadores que parecem ter descoberto agora que telenovela também é produto, e que, como todo produto, precisa se equilibrar entre forma artística e retorno financeiro.

Vale Tudo (2025) – Wikipédia, a enciclopédia livre

A força do clássico e o peso da expectativa

Esse paradoxo é o ponto de partida para entender a reação a Vale Tudo. Ao mesmo tempo em que a novela cumpre sua função — entreter e atrair anunciantes —, ela é punida por fazê-lo. Em poucos meses, a produção fechou acordos com 16 marcas e ultrapassou R$ 200 milhões em receitas de merchandising, algo que a coloca como fenômeno comercial no horário nobre. Mas esse próprio sucesso virou combustível para parte incendiária das críticas: a visibilidade das marcas foi lida como contaminação estética, quase uma traição à ideia de pureza narrativa que o público, em parte, ainda espera da ficção televisiva.

 

É importante lembrar que a telenovela brasileira nunca foi apenas cultura: é também indústria. Produzir quase 200 capítulos inéditos, exibidos diariamente por oito ou nove meses, não se sustenta apenas com a venda de anúncios nos intervalos. O modelo econômico exige múltiplas fontes de receita. É aí que entram o merchandising integrado e o product placement, que garantem a escala necessária para manter elencos numerosos, cenários sofisticados e equipes técnicas trabalhando em ritmo industrial. Criticar uma novela por ter anunciantes, sem compreender essa engrenagem, é reprovar justamente a estrutura que a torna possível. 

 

As reações ao remake revelam também diferentes perfis de público. Parte dos espectadores que se surpreendem com a presença ostensiva de marcas vem do universo do streaming, onde o modelo de assinatura promete uma experiência “limpa” de publicidade direta. Esse público associa qualidade à ausência de anúncios e, quando se depara com uma cena em que a personagem menciona explicitamente a marca ou segura um objeto como vitrine, sente choque cultural. É como se estivesse sendo enganado, quando na verdade está apenas testemunhando uma tradição da televisão aberta brasileira, que há décadas se financia dessa forma.

 

Outro ponto relevante é o preconceito histórico contra o formato. Desde os anos 1970, a telenovela foi, paradoxalmente, vista como orgulho nacional e como entretenimento “menor”. Há quem a desqualifique frente ao cinema ou às séries internacionais, como se seu caráter popular fosse sinônimo de baixa qualidade. Esse viés de hierarquia cultural reaparece nas críticas ao remake: não se trata apenas de apontar problemas reais, mas de reforçar a ideia de que novela não merece ser levada a sério como narrativa complexa. Assim, a cada falha técnica ou inserção publicitária, a novela é acusada de trair a arte, como se o cinema e o streaming não estivessem igualmente submetidos a pressões comerciais, ainda que de formas distintas.

 

Audiência robusta, crítica ruidosa

Isso não significa que Vale Tudo esteja livre de erros. O remake apresenta deslizes técnicos que viralizam com facilidade: objetos que mudam de posição entre cenas, cortes que confundem a espacialidade das ações. Esses equívocos, quando capturados por um público cada vez mais atento, tornam-se memes instantâneos e circulam com uma velocidade que ultrapassa em muito a das correções possíveis no fluxo de produção. Há também fragilidades narrativas: arcos apressados, motivações simplificadas, antagonistas que perderam parte da ambiguidade que os tornava fascinantes na versão original. Não é coincidência que familiares do autor Gilberto Braga tenham se manifestado, assim como atores e técnicos, apontando insatisfações internas. As rachaduras produtivas existem e não devem ser ignoradas.

 

O problema é que, na era das redes sociais, crítica legítima e linchamento digital se confundem. Um erro pontual vira argumento para declarar a falência de toda a obra, e a conversa escapa o terreno da análise. Uma avaliação que poderia ser construtiva — identificar falhas, propor ajustes, compreender escolhas — acaba se transformando em ataque coletivo que desconsidera a natureza colaborativa do trabalho televisivo. Em uma novela, nenhum erro é responsabilidade exclusiva de uma pessoa; cada falha é fruto de um ecossistema de pressões, prazos, decisões e limitações. Julgar isso sem contexto é injusto e, em última instância, improdutivo.

 

Para entender esse contexto, é necessário aceitar a lógica da produção seriada. A novela brasileira tem uma gramática própria, construída ao longo de décadas: consumo ritualístico, repetição de cenários, alongamento de conflitos, desenvolvimento paulatino de vínculos entre público e personagens. É uma estética que depende da rotina: seis capítulos semanais, quase seis horas de conteúdo original em ritmo contínuo. Isso impõe restrições e escolhas pragmáticas. Cenários fixos, câmeras recorrentes, diálogos que reiteram informações. O resultado não é um defeito, mas parte da identidade do formato. Exigir da novela uma estética cinematográfica em todos os episódios é pedir que ela se torne algo para o qual não foi concebida — e, se fosse, perderia justamente a capacidade de criar memória coletiva, esse traço tão brasileiro.

Comfort chega à novela Vale Tudo protagonizando momento de Maria de Fátima

Representatividade e novos rostos

No caso do remake, outro debate central é a representatividade. Atualizar a obra para incluir protagonistas negras em papéis de destaque foi um avanço incontestável. A presença de Taís Araújo e de outras atrizes negras em posições centrais corrige, ainda que parcialmente, uma dívida histórica da televisão com a diversidade. É também um ganho estético: a pluralidade de rostos, vozes e histórias amplia o horizonte da narrativa e dialoga melhor com o Brasil de hoje. Esse tipo de mudança tem impacto simbólico enorme, porque altera referências culturais e legitima novas formas de protagonismo.

 

Mas nem todas as atualizações foram bem recebidas. A suavização de vilanias que antes fascinavam, a reinterpretação de conflitos sem a mesma densidade ambígua, a introdução de gírias digitais ou de recursos tecnológicos geraram estranhamento. Atualizar não significa simplesmente adaptar a superfície: é preciso entender o que era estrutural na obra original e o que pode ser transformado sem comprometer a força dramática. A fronteira entre inovação e descaracterização é sempre delicada, e nem sempre o remake soube equilibrá-la.

 

Nesse cenário, a crítica assume papel crucial. O debate em torno de Vale Tudo expõe a urgência de uma crítica mais qualificada, capaz de distinguir o que é opção estética, o que é limitação de produção e o que é erro de execução. Ao público recém-chegado das plataformas digitais cabe aprender as convenções do formato. Aos críticos, cabe aprofundar critérios, evitando análises que se reduzam a indignações momentâneas. E aos veteranos, aqueles que acompanham novelas há décadas, cabe compartilhar sua experiência, ajudando a contextualizar regras narrativas, escolhas de direção e pressões comerciais sem cair na condescendência. Só assim a crítica pode de fato contribuir para elevar a conversa.

 

Uma crítica responsável não precisa aplaudir tudo nem poupar os equívocos, mas deve ser capaz de separar frustração individual de diagnóstico coletivo. Precisa apontar excessos, exigir correções e reconhecer avanços socioculturais. Precisa também considerar os bastidores, o modelo econômico, o ritmo de produção, sem ignorar que a novela é, ao mesmo tempo, produto de massa e patrimônio cultural. Quanto mais esse olhar se qualifica, mais o público se torna exigente — e, por consequência, mais a indústria tende a se aprimorar.

Taís Araujo brilha e Bella Campos surpreende na estreia de "Vale Tudo" | DG

Vale tudo pela crítica?

No fim das contas, Vale Tudo nos devolve a uma questão antiga: que tipo de novela queremos e como queremos criticá-la? Se desejamos que o gênero siga sendo um fenômeno nacional — capaz de entreter milhões, de pautar conversas, de sustentar uma cadeia produtiva que emprega milhares de pessoas —, precisamos aceitar sua natureza comercial sem abrir mão da cobrança por qualidade técnica e integridade narrativa.

 

Uma novela pode ser, ao mesmo tempo, produto e patrimônio cultural. Reconhecer essa ambivalência é o primeiro passo para que as críticas se tornem úteis: que apontem erros sem demonizar o formato, que inspirem correções sem linchar equipes, que celebrem conquistas como a representatividade sem fechar os olhos para tropeços técnicos. 

 

Talvez, no fim, aceitar a novela em sua complexidade — com suas imperfeições, seus acertos, sua dimensão industrial e cultural — seja uma forma de responder à pergunta que dá nome à obra. Vale a pena ser honesto no Brasil? A resposta continua em aberto. E, como a própria novela nos ensina, depende do quanto estamos dispostos a encarar contradições e a dialogar com aquilo que consumimos.

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Comentários 3

F
Fátima M.24 de outubro de 2025
Vi a original e entendo bem o que o artigo quer dizer. Naquela época também havia propaganda e ninguém reclamava. Hoje criticam mais por esporte. A TV sempre foi espelho do seu tempo e essa não é diferente.
C
Carlos Barnabé4 de outubro de 2025
Tenho que falar: esse "Vale Tudo 2025" tá visualmente impecável e mandando muito bem nos temas. É um baita raio-X do Brasil de hoje, com todas as contradições e elenco tá afiadíssimo e a direção, super moderna. Como espectador, sei os deslizes no ritmo e umas tramas que a gente sente que se perdem no meio do caminho e a curiosidade de ver o que eles fizeram com a história original me mantém no sofá. Agora, com o chapéu de quem trabalha com marca, tiro o chapéu para a construção em volta do título. Os caras reposicionaram um clássico de um jeito super relevante para os dias de hoje. Isso mostra o valor de produto premium e icônico, mesmo que os tropeços na história acabem enfraquecendo um pouco a conexão emocional do público. No final das contas, tô assistindo e curtindo, apesar dos pesares!
C
Claudia_Assuncao4 de outubro de 2025
Da pra sentir a mistura entre novela como arte e como produto. Mesmo com grandes audiências e sucesso de marcas, o público não consegue tirar o incômodo do excesso de publicidade e algumas falhas de roteiro e atuação. Mas o texto lembra que é isso que mantém a novela viva: um projeto gigante, com muitos custos e pressões. Ao dmesmo tempo, valoriza o que o remake acertou, como a presença de Taís Araújo e grandes outro nomes. No fim, faz pensar se dá pra cobrar qualidade sem esquecer que novela também é negócio?

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