A HBO acerta de novo: Task é um excelente drama policial
Críticas GeraisOntem a HBO presenteou os amantes do drama policial com Task, a mais nova obra de Brad Ingelsby, o criador por trás do excelente Mare of Easttown. Adoro séries de domingo: preenchem o vazio existencial que bate quando escuto a música do Fantástico e sinto aquela eterna sensação de “fazer o dever de casa”, que me acompanha desde a época do colégio.
E, como toda série da HBO, só há um episódio disponível por semana. Serão sete, mas já podemos adiantar que esta é uma produção diferenciada, que estabelece sua própria identidade narrativa de forma marcante.

Brad Ingelsby e os subúrbios da Filadélfia
Aqui, o criador da série retorna ao que sabe fazer melhor: explorar as entranhas dos subúrbios operários da Filadélfia, onde pessoas comuns enfrentam dilemas humanos e, ao mesmo tempo, extraordinários.
Diferente de Mare of Easttown, que era um “whodunnit”, aqui sabemos desde o início que há uma onda de crimes violentos e quem os comete. Mas a trama vai além do típico jogo de gato e rato entre polícia e criminoso. Task é, fundamentalmente, um estudo sobre dois homens esmagados pela vida, que se encontram em lados opostos, mas estão unidos por traumas e responsabilidades familiares.
A genialidade de Ingelsby reside em sua capacidade de criar personagens que não são nem heróis nem vilões. Tom Brandis (Mark Ruffalo) e Robbie Prendergrast (Tom Pelphrey) são homens marcados por perdas devastadoras, e cada um tenta encontrar redenção à sua maneira.

Ruffalo x Pelphrey
Algo que me impressionou em Task é a performance de Mark Ruffalo como Tom Brandis. Sou fã do ator, mas não pelo seu trabalho no Marvel Cinematic Universe, e sim pelos dramas independentes. Em Task, ele me lembrou o personagem Lee, que interpretou brilhantemente em Minha Vida Sem Mim, filme de 2003 que eu amo e que foi dirigido por Isabel Coixet. Esta é, sem dúvidas, uma de suas melhores interpretações na televisão, e já o coloca como forte candidato ao Emmy. Acreditem: a indicação já pode ser considerada certa.
Ruffalo constrói Tom como um homem assombrado por seu passado como padre e dilacerado por uma tragédia familiar que ainda não consegue perdoar. Sua interpretação é uma lição de economia dramática: gestos e olhares carregam o peso de anos de culpa e arrependimento. Há uma cena particularmente poderosa no primeiro episódio em que Tom está em uma feira de carreiras recrutando para o FBI, e Ruffalo consegue transmitir toda a desconexão emocional do personagem através de um diálogo aparentemente trivial.
Do outro lado temos Tom Pelphrey, que já havia demonstrado seu talento em Ozark, entregando uma interpretação igualmente impressionante como Robbie Prendergrast. Pelphrey consegue algo extremamente difícil: fazer com que nos importemos genuinamente com um homem que comete crimes violentos.
Robbie não é retratado como um criminoso nato, mas como alguém empurrado para o crime pelas circunstâncias. Assim como Ruffalo, Pelphrey constrói o personagem com uma vulnerabilidade palpável, mostrando um homem que acredita sinceramente estar fazendo o necessário para proteger sua família. Há uma cena em que ele justifica suas ações dizendo: “vou aceitar o dinheiro deles para que possamos ter uma vida melhor”. A forma como Pelphrey entrega essa linha elimina qualquer romantização do crime: é apenas desespero, necessidade.
Ambos os atores transmitem que seus personagens são reflexos um do outro — homens destruídos por tragédias pessoais que encontraram formas diferentes de lidar com a dor.
Mas Task não se sustenta apenas em suas duas estrelas principais. O elenco coadjuvante entrega performances consistentemente sólidas que enriquecem a narrativa.
Emilia Jones, estrela de CODA, brilha como Maeve, a sobrinha de Robbie que se vê forçada a assumir responsabilidades de adulto muito cedo. Jones consegue equilibrar a juventude da personagem com a maturidade imposta pelas circunstâncias, criando uma presença realmente tocante.
Martha Plimpton traz sua experiência veterana como Kathleen McGinty, a supervisora de Tom no FBI. Plimpton consegue ser simultaneamente autoritária e maternal, criando uma dinâmica interessante com o protagonista de Ruffalo. Sua presença adiciona camadas à hierarquia do FBI e serve como contraponto às tendências autodestrutivas de Tom.
O jovem elenco da força-tarefa — incluindo Alison Oliver (Lizzie), Fabien Frankel (Anthony) e Thuso Mbedu (Aleah) — consegue criar personalidades distintas mesmo com tempo de tela limitado. Cada um traz suas próprias bagagens e motivações, evitando o clichê de policiais unidimensionais.

Realismo e sensibilidade
A direção de Task, compartilhada entre Jeremiah Zagar e Salli Richardson-Whitfield, merece reconhecimento especial. Os diretores criam uma atmosfera visual simultaneamente realista e cinematográfica, capturando a essência dos subúrbios da Filadélfia sem glamourizar a pobreza ou romantizar o crime.
A fotografia é particularmente impressionante. Há um uso inteligente de luz natural que dá às cenas um ar documental, sem sacrificar a beleza visual. A HBO tem um histórico de criar excelentes dramas policiais, como The Wire, que revolucionou a televisão ao trazer essa crueza. Mas aqui é diferente. As sequências de ação são filmadas com urgência, mas nunca de forma gratuitamente violenta. Cada confronto tem um propósito narrativo maior.
A direção de arte também merece destaque por criar ambientes que parecem autênticos. As casas, as ruas, os locais de trabalho — tudo contribui para um mundo vivido e real. Não há nada que pareça construído especificamente para a televisão; tudo soa orgânico e genuíno. O FBI, por exemplo, é retratado como um ambiente frio e impessoal, bem diferente de produções que glamurizam a atividade policial.
A construção narrativa
Uma das maiores forças de Task é como Ingelsby subverte as expectativas do gênero policial tradicional. Diferente de Mare of Easttown, onde o mistério central dirigia a narrativa, aqui conhecemos desde o início quem são os “bandidos”. A tensão não vem de descobrir “quem fez”, mas de entender “por que fizeram” e “como isso vai acabar”.
Essa estrutura narrativa permite que Ingelsby se concentre no que faz melhor: desenvolvimento profundo de personagens e diálogos autênticos, com hesitações, repetições e a economia de palavras típica da classe trabalhadora norte-americana. Cada episódio revela novas camadas de Tom e Robbie, mostrando como suas respectivas tragédias moldaram quem se tornaram. É uma abordagem mais próxima do drama do que do thriller, embora mantenha elementos suficientes de suspense para engajar o público.
Perdão, redenção e moralidade
Task não é uma série que oferece respostas fáceis. Pelo contrário, ela se deleita em fazer perguntas difíceis sobre moralidade, justiça e redenção. A questão central não é se Tom vai capturar Robbie, mas se qualquer um dos dois pode encontrar paz com suas escolhas.
O tema do perdão perpassa toda a narrativa. Tom, que atuou como padre por oito anos, deveria teoricamente entender o conceito de perdão, mas luta para aplicá-lo em sua própria vida. Robbie, por sua vez, pede perdão antecipado por suas ações, acreditando que está fazendo algo errado pelas razões certas. Essa tensão moral eleva a série muito além de um simples enredo policial.
A paternidade é outro tema que conecta os dois protagonistas. Ambos são pais que falharam de formas diferentes, e suas respectivas culpas os impulsionam em direções opostas. Tom tenta encontrar redenção através do trabalho, enquanto Robbie busca através do crime. É uma dinâmica que adiciona profundidade emocional a cada confronto.
HBO em seu melhor
Do ponto de vista técnico, Task exemplifica por que a HBO continua sendo o padrão-ouro da televisão premium. A produção tem aquela qualidade pela qual a emissora é conhecida, mas sem ostentação. Cada elemento técnico — da edição ao som — serve à narrativa.
A trilha sonora merece menção especial. Composta por Dan Deacon (que passou pelo finado Tim Festival em 2008 para fazer um excelente DJ-Set — e eu estava lá) , ela mescla minimalismo eletrônico e camadas melódicas que intensificam a tensão e a melancolia da série sem jamais se sobrepor à narrativa. É uma trilha que pulsa junto ao drama, reforçando a atmosfera sem buscar protagonismo.
A edição é particularmente eficaz na construção de tensão. Os cortes entre as vidas paralelas de Tom e Robbie criam uma sensação de inevitabilidade, como se estivéssemos assistindo a uma colisão em câmera lenta.
Muito parecida com Mare of Easttown?
É impossível discutir Task sem compará-la com Mare of Easttown, e as similaridades são evidentes: ambas se passam em comunidades operárias da Filadélfia, ambas exploram trauma pessoal através de investigações criminais, e ambas apresentam protagonistas profundamente falhos.
Entretanto, Task estabelece sua própria identidade de forma convincente. Onde Mare era fundamentalmente sobre uma mulher incapaz de lidar com a morte do filho, Task é sobre dois homens tentando encontrar redenção através de métodos opostos. A estrutura narrativa também é diferente — Mare era um whodunnit tradicional, enquanto Task é mais um estudo de caráter.
A qualidade permanece consistente. Ingelsby demonstra novamente sua habilidade de criar personagens complexos em situações impossíveis, mas desta vez com uma paleta emocional ligeiramente diferente.
HBO: um catálogo cada vez melhor
Task não é apenas uma sucessora digna de Mare of Easttown; é uma obra que merece ser julgada por seus próprios méritos. É uma narrativa simultaneamente íntima e épica, explorando questões universais através de uma história profundamente específica.
A série representa o melhor da televisão contemporânea, algo que há algum tempo não víamos: escrita inteligente, atuações excepcionais, direção competente e produção de alta qualidade. Mark Ruffalo e Tom Pelphrey entregam performances que sozinhas justificariam assistir à série, mas é a forma como todos os elementos se combinam que torna Task verdadeiramente especial.
Task é aquilo que eu, como pesquisador de televisão, sempre procuro: arte televisiva no seu melhor. E prova, mais uma vez, por que a HBO ainda é a referência em televisão de qualidade. Com apenas um episódio, já estou completamente ansioso pelos próximos capítulos. É exatamente o tipo de produção que nos lembra porque a televisão contemporânea pode ser tão artisticamente relevante.










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