Wake Up Dead Man e o estilo whodunit de Rian Johnson

Críticas Gerais

Rian Johnson emergiu como um profissional capaz de revitalizar gêneros cinematográficos estabelecidos através de uma sensibilidade que nunca sacrifica o prazer narrativo em nome da desconstrução. 

Com Wake Up Dead Man: Um Mistério Knives Out, o terceiro capítulo de sua celebrada franquia de mistérios, Johnson não apenas consolida sua assinatura autoral como reafirma a vitalidade do whodunit como forma cinematográfica capaz de interrogar as ansiedades culturais de nosso tempo.

Tive a oportunidade de assistir ao filme no Festival de Toronto e noto que a nova entrada da franquia da Netflix representa um amadurecimento notável na abordagem de Johnson ao gênero. Para entender o que o diretor alcançou aqui, é preciso primeiro reconhecer o que ele vem construindo desde 2019. Entre Facas e Segredos pegou uma família rica da Nova Inglaterra e expôs as mentiras que sustentam a riqueza geracional. Glass Onion levou Benoit Blanc para uma ilha grega onde bilionários da tecnologia brincavam de ser gênios enquanto o mundo pegava fogo. Agora, em Wake Up Dead Man, o detetive entra em uma comunidade religiosa onde a linha entre salvação e manipulação foi completamente borrada.

O filme se passa durante a Semana Santa em uma paróquia liderada pelo Monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin), um líder que transformou sua igreja em algo que parece menos casa de oração e mais culto de personalidade. Quando um crime inexplicável abala a comunidade, Blanc é chamado para investigar. 

Mas diferentemente dos filmes anteriores, onde o detetive dominava cada cena com seus monólogos elaborados e maneirismos excêntricos, aqui Craig faz algo surpreendente: ele recua. Essa decisão, confesso, me surpreendeu em diferentes momentos - tanto por gostar demais do método de investigação dele como também pelo brilho de Craig no papel.

 

A Evolução do Detetive no Cinema Moderno

Wake Up Dead Man: A Knives Out Mystery' Review: Benoit Blanc Is Back
Daniel Craig mantém o peso do seu personagem, mas Josh O'Connor se torna o maior destaque do filme


A decisão de Johnson de fazer Benoit Blanc adotar uma postura mais contemplativa e receptiva neste terceiro filme também me gerou uma reflexão profunda sobre o papel do detetive no cinema contemporâneo. Desde Hercule Poirot e Philip Marlowe, o detetive cinematográfico tradicionalmente ocupava o centro gravitacional da narrativa, sua personalidade dominando cada cena. Johnson subverte essa tradição sem abandoná-la. Blanc permanece essencial, mas sua autoridade agora deriva não da imposição, mas da escuta atenta. Esta mudança ecoa as transformações mais amplas no cinema de mistério contemporâneo, em que nomes como Fincher e Bong Joon-ho questionaram a própria possibilidade de resolução definitiva de um caso.

Esta escolha abre espaço para Josh O'Connor entregar uma memorável atuação. O padre Jud Duplenticy é uma criação fascinante – um ex-boxeador que trocou a violência física do ringue pela suposta paz espiritual. O'Connor constrói um personagem em constante tensão consigo mesmo, onde cada gesto sugere uma história de raiva mal resolvida e redenção incompleta. Que piora quando a comunidade não parece ser muito receptiva aos seus pensamentos.

A dinâmica entre Jud e o Monsenhor Wicks é o primeiro motor dramático do filme, visto que os perfis são opostos: Wicks faz de seus sermões peças de teatro calculadas, e suas interações com os fiéis misturam um estranho sentimento de preocupação com um traço de manipulação sutil. 

O contraste entre os dois padres funciona como um comentário sobre diferentes formas de autoridade masculina. Wicks representa a masculinidade tradicional disfarçada de liderança espiritual; Jud carrega uma masculinidade quebrada que busca reconstrução através da fé. 

 

Morte na Igreja

A ambientação do mistério principal do filme em uma comunidade religiosa durante a Semana Santa faz com que Johnson use o calendário litúrgico como base estrutural para a narrativa, onde cada dia tem um simbolismo especial no período da Páscoa: mas, aliás, esse simbolismo nunca é didático – questões sobre sacrifício, ressurreição e redenção permeiam o filme sem nunca se tornarem óbvias demais ou expositivas a ponto de ficar cansativo.

A fotografia de Steve Yedlin trabalha com uma iconografia que contrasta o sagrado com o mundano: os espaços religiosos são filmados com uma reverência nos planos amplos de vitrais e altares que parecem simultaneamente celebrar e questionar sua própria grandiosidade diante do que Wicks construiu. Há uma sequência particular durante uma confissão que usa a arquitetura do confessionário como uma metáfora visual para segredos e revelações que é muito criativa.

Penso que o filme evita a armadilha fácil de simplesmente criticar a religião. Johnson está mais interessado em examinar como a necessidade humana por significado e pertencimento pode ser explorada. Cada personagem na paróquia representa uma relação diferente com a fé – desde a devoção cega até o ceticismo relutante, desde a busca desesperada por milagres até a manipulação do sagrado.

 

O Cinema de Gênero Como Espelho Social
Wake Up Dead Man é mais uma prova de que as convenções de mistério não podem ser vistas como limitações, mas sim como ferramentas. Johnson usa a estrutura do whodunit não como algo para ser cumprido e definindo um ponto de corte, mas sim como uma fonte para examinar as patologias contemporâneas. Nesse sentido, a paróquia de Wicks funciona como um microcosmo perfeito – um espaço onde poder, fé, dinheiro e moralidade se entrelaçam de formas complexas e muitas vezes contraditórias.

Mais profundamente, o filme interroga a própria natureza do conceito de comunidade no século XXI. A paróquia que Johnson constrói é simultaneamente íntima e alienada, unida por rituais compartilhados mas dividida por segredos individuais. É uma reflexão ímpar sobre como as instituições que deveriam unir– sejam igrejas, redes sociais ou movimentos políticos – frequentemente se tornam espaços de isolamento, onde a aparência de pertencimento substitui a conexão verdadeira.

Pensando sobre o gênero, o que distingue o método de Johnson é sua recusa em tratar o whodunit como nostalgia. Enquanto outros cineastas que produziram conteúdo recente no gênero (como Kenneth Branagh com seu Poirot) optaram por uma reverência total, Johnson usa as convenções como instrumentos de dissecação social. 

O grupo fechado de suspeitos - tão tradicional no gênero - serve também como uma metáfora para como vivemos em bolhas sociais. Em Wake Up Dead Man, o espaço sagrado da igreja, que deveria representar ordem moral absoluta, revela-se como o cenário perfeito para examinar como a própria ideia de ordem pode ser uma forma de opressão quando o ambiente permite tantos segredos além das confissões.

No final da sessão de debate do filme no Festival de Toronto - a principal questão era sobre o futuro da franquia. Johnson fez um acordo milionário com a Netflix, e é interesse da plataforma fazer o possível para conseguir produzir mais filmes. Mesmo com a resistência da plataforma em garantir uma janela no cinema, também foi anunciado em Toronto que a Netflix concordou com um período de 14 dias nas salas - facilitando também a possibilidade de surgir em outros países, o que não ocorreu com Glass Onion. 

Fico feliz por ver uma franquia jovem com potencial, sem precisar reciclar a mesma premissa. Por mais projetos assim no gênero mistério!

Comentários 40

V
Vitor S8 de setembro de 2025
Torcer para a Netflix continuar apoiando esses lançamentos híbridos para esses filmes da temporada de prêmios por aqui.
A
Ana Cristina Tandaya8 de setembro de 2025
Ótimo artigo Dale, eu gostei de Glass Onion mais claro que o primeiro foi meu favorito. Gostei do elenco deste novo filme, já ansiosa para assisti ele. Sua cobertura em Toronto está ótima, já esperando as críticas dos novos filmes que vais assistir. Abraços!
Q
Quiz Tático8 de setembro de 2025
Legal saber que knives out volta a ter um bom filme depois da derrapada com o glass onion.
T
Tatiane Costa8 de setembro de 2025
Adorei o artigo, Dale! Fiquei bem curiosa para ver o novo filme, já que o último não tinha me agradado tanto. Também achei muito interessante esse ponto que você traz sobre fugir da crítica óbvia à religião e olhar para a necessidade de pertencimento.
E
Emmanuel Correia8 de setembro de 2025
Eu penso que a franquia Knives Out, utiliza de elementos das obras da Agatha Christie, de uma maneira melhor que as adaptações dirigidas pelo Kenneth Branagh. Por exemplo na construção do suspense ou no desenvolvimento dos personagens.
C
Claudio Sales8 de setembro de 2025
Já vi os dois anteriores da franquia. Não sou o maior fã de whodunit, mas gostei do primeiro.
K
Karina Cerqueira8 de setembro de 2025
Estou ansiosa para assistir esse. Gostei do primeiro, porém, o segundo não me cativou. Espero que seja uma verdadeira "volta as origens"
G
Gabrie Araujo8 de setembro de 2025
Empolgado para esse novo, gostei do primeiro filme, mas Glass Onion acabou me decepcionando, de tudo que vi até agora, esse parece ser consideravelmente melhor que o anterior
C
Carlos Antonio Correa Fortes8 de setembro de 2025
A notícia boa é que poderemos assistir no cinema. Abraço. Carlos Fortes de Porto Alegre RS
F
Francisco José Faustino8 de setembro de 2025
Feliz pelo Josh O'Connor ser o destaque de atuação do filme, mais Josh O'Connor e menos Timóteo Chalala!
S
Sergio Frigini Reis8 de setembro de 2025
Me interessei pela franquia, nunca tinha me interessado
L
Lucas Faustino8 de setembro de 2025
Gosto bastante dos anteriores.
V
Vicente D8 de setembro de 2025
Apesar de não ter curtido muito Glass Onion, sempre achei divertidas as histórias do modelo whodunit -- em especial Knives Out -- então recebo com bons olhos essa franquia e torço por mais filmes!</br></br>Confesso que minha expectativa para essa nova entrada aumentou agora e achei muito interessante a tua visão de como o novo filme aborda essa necessidade humana por significado e pertencimento.</br></br>Quando comentou sobre o padre Jud, me veio imediatamente o padre Karras, ambos boxeadores. Seria apenas uma coincidência ou temos uma relação entre a "violência" exercida pelos personagens e uma forma de penitência?
L
Luiz Felipe Paiva Leite Santos8 de setembro de 2025
Parabéns Dale bela crítica! Vou buscar começar a assistir a Franquia de Rian Johnson para assistir a este seu novo filme!
M
mcochiolito8 de setembro de 2025
Belo comentário! Daqueles que iluminam a obra, reforçando a vontade já de assistir, de poder ter a experiência do filme. Valeu Dale!
G
Guilherme Oliveira de Matos8 de setembro de 2025
Gostei bastante do primeiro e nada do segundo, espero que esse terceiro seja bom!!
U
User-14641614228 de setembro de 2025
O artigo me convenceu a tirar Glass Onion da minha watchlist.
U
User-14343045938 de setembro de 2025
Que bacana, Dale! E que venham mais produções dessa franquia! 👏🏻👏🏻👏🏻
J
João Krauss8 de setembro de 2025
Animador demais ver uma franquia de mistério com um modelo whodunnit clássico sustentar sua qualidade mesmo no terceiro filme. Que venham mais!
T
Teodoro Garrel do Nascimento8 de setembro de 2025
Lembro quando saiu que Knives Out seria uma franquia super explorada e havia um medo de que desse errado, pois está indo bem mesmo que não chegue com tanta força mas premiações.

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