“O Clube de Crime das Quintas-Feiras”: ou onde eu gostaria de passar minha velhice
Críticas GeraisEu não conhecia o livro The Thursday Murder Club, de Richard Osman, que virou fenômeno literário em 2020. Meu interesse pelo filme não nasceu dessa origem editorial, mas sim de um detalhe simples: o trailer apareceu para mim na Netflix com aquele aviso de “em breve”. E ganhou força depois de assistir Terra da Máfia. Afinal, ambos são protagonizados por Helen Mirren e Pierce Brosnan, que possuem uma baita química, seja no drama ou na comédia. Mas, como fã de mistérios, algo na proposta — um grupo de idosos investigando crimes — logo me fisgou. Quando vi que era dirigido por Chris Columbus, já ativei o sininho para ver na quinta-feira mesmo. Afinal, o filme parecia prometer mais do que uma simples comédia britânica.
E de fato, não me enganei.

A história que nos leva às quintas-feiras
A trama é ambientada em Cooper’s Chase, uma comunidade de aposentados endinheirados no interior da Inglaterra. À primeira vista, é o cenário perfeito para tardes de chá, caminhadas pelo jardim e atividades que ricos adoram fazer, como arco e flecha. Mas Elizabeth (Helen Mirren), Ibrahim (Ben Kingsley), Joyce (Celia Imrie) e Ron (Pierce Brosnan), quatro amigos septuagenários, criam um clube secreto com um propósito inusitado: investigar crimes não resolvidos. Oficialmente, é o clube de quebra-cabeças — na prática, mergulham em dossiês policiais esquecidos.
O que parecia passatempo intelectual vira realidade quando um promotor imobiliário, figura local controversa, é encontrado morto. O quarteto, então, troca teorias por ação, e passa a conduzir sua primeira investigação real.
Essa é a sinopse básica, mas, como todo bom enredo, funciona como superfície para reflexões mais profundas sobre amizade, relevância, memória e a forma como enxergamos a velhice. E talvez aí resida o grande acerto: não é apenas sobre solucionar um crime, mas sobre a insistência desses personagens em não se deixarem reduzir a invisibilidades sociais.

Um elenco de luxo
É impossível não se impressionar com o elenco principal. Helen Mirren transmite uma elegância magnética como Elizabeth, cujo passado é um tanto misterioso e descobrimos com o desenrolar da história. Ela é casada com Stephen (Jonathan Pryce, que brilha em Slow Horses), um autor publicado que sofre com Alzheimer. Pierce Brosnan, no papel de Ron, sindicalista aposentado, entrega um trabalho surpreendentemente contido. O charme irlandês está lá, mas longe do glamour de James Bond. Ben Kingsley como o psiquiatra Ibrahim entrega momentos de seriedade cômica, enquanto Celia Imrie, como Joyce (a Una, de Bridget Jones!) conquista pela delicadeza e pelos lindos bolos.
O elenco de apoio é igualmente saboroso. Já falei aqui sobre Terra da Máfia, que trouxe Mirren e Brosnan juntos. Aqui, alguns rostos que também estão nessa série aparecem, como Geoff Bell como Tony Curran. Isso cria uma continuidade involuntária que um fã atento como eu percebe com prazer. Tom Ellis, de Lúcifer, também faz um importante papel, e David Tennant uma ótima participação. Ou seja: para quem acompanha o audiovisual britânico, é um prato cheio de reencontros.
E não se trata apenas de acenos. São coadjuvantes com densidade, não figurantes de luxo. Cada aparição acrescenta uma camada ao universo, dando a sensação de que Cooper’s Chase é realmente habitada por pessoas com histórias próprias.

Bons atores, mas bons personagens
O que mais me conquistou, porém, foi a dinâmica entre os protagonistas. Há uma cumplicidade natural entre Mirren, Brosnan, Kingsley e Imrie que transcende a soma de talentos individuais. E aqui vale a comparação inevitável: Chris Columbus fez algo parecido em Harry Potter e a Pedra Filosofal e A Câmara Secreta. Na época, ele construiu uma família cinematográfica a partir de jovens atores inexperientes. Agora, repete o feito com veteranos consagrados.
A química é palpável: olhares, pausas, piadas compartilhadas. É a mesma sensação que tínhamos ao ver o trio de Hogwarts crescendo juntos, mas em uma chave madura. Columbus resgata aquela energia de grupo unido, mostrando que não importa a idade dos intérpretes — quando existe conexão, o público sente. E essa é uma das maiores conquistas do filme: provar que não há idade para recriar aquele sentimento de pertencimento coletivo que tantas vezes só associamos à juventude.
Columbus mostra maturidade e respeito em cada escolha de enquadramento e ritmo narrativo. Ele não reduz seus protagonistas a caricaturas de velhinhos atrapalhados. Pelo contrário: filma-os como heróis de sua própria aventura.

Mistério, humor e boa dose de reflexão
O roteiro, assinado por Katy Brand e Suzanne Heathcote, com consultoria de Richard Osman, encontra o tom ideal entre mistério, comédia leve e reflexão existencial. As piadas nunca caem na armadilha da condescendência. Elas surgem de contrastes, como a polícia subestimando o grupo ou teorias absurdas que se revelam corretas.
Ao mesmo tempo, o mistério é tratado com seriedade. As pistas estão bem plantadas, os falsos caminhos são convincentes e a resolução, embora não tão surpreendente, não soa forçada. É entretenimento inteligente, que respeita o espectador. E nesse ponto, é interessante notar a diferença em relação a outras produções do gênero, como Glass Onion, que se apoiam em caricaturas e extravagâncias visuais. Aqui, tudo é mais contido — mais britânico, o que torna a resolução ainda mais satisfatória.
Mas a verdadeira força do filme está no que ele sugere: que a velhice não é sinônimo de irrelevância. Cada personagem traz sua bagagem profissional — espionagem, psiquiatria, sindicalismo, enfermagem — e, juntos, eles redescobrem propósito. O crime é o fio narrativo, mas a costura real é sobre pertencimento e reinvenção.
Esse aspecto é particularmente tocante porque toca em um medo muito comum: o de se tornar “invisível” após determinada idade. Ao colocar seus protagonistas como detetives competentes, Columbus e Osman devolvem a eles algo que nossa sociedade insiste em negar: protagonismo. Eles não apenas participam da história; eles a conduzem. E, principalmente, transformam o mundo ao redor de si.

Os fantasmas contemporâneos
Sem dar spoilers, preciso destacar como o filme insere temas delicados de maneira quase lateral, mas ainda assim significativa. Há personagens que tocam, ainda que discretamente, a questão da imigração, lembrando que a Inglaterra atual não é feita apenas de tradições, mas também de fluxos e diferenças culturais. É um detalhe narrativo, mas que amplia a verossimilhança do universo.
Outro ponto, ainda mais delicado, aparece em diálogos sutis e em olhares sugestivos: a eutanásia, o uso de opioides, até menções ao fentanil. Não há exposição exagerada, mas a presença desses temas dá peso dramático. São reflexos de dilemas reais que a terceira idade enfrenta hoje, tratados com cuidado para não ferir a delicadeza da narrativa. O filme sabe que está pisando em terreno sensível. E não transforma isso em espetáculo — apenas insinua, o suficiente para gerar reflexão.

A perspicácia do humor britânico
Sendo fã de comédias inglesas, reconheci aqui o que mais admiro nesse estilo: situações aparentemente banais que ganham força pela inteligência do texto e entrega dos atores. É o mesmo riso que já encontrei em produções como O Barato de Grace ou, mais recentemente, Pequenas Cartas Obscenas. Aqui, o alvo é claro: o ageísmo.
O timing cômico é impecável, especialmente nas cenas em que os idosos apresentam teorias absurdas que, para espanto geral, acabam corretas. É um riso que vem acompanhado de respeito. Talvez seja por isso que o humor britânico, quando bem feito, é memorável.
Entretenimento com delicadeza e propósito
O Clube de Crime das Quintas-Feiras é, para mim, uma prova de que entretenimento pode ser leve e, ao mesmo tempo, reflexivo. O filme consegue equilibrar riso, suspense e crítica social em doses precisas.
Terminei o filme com um gostinho de quero mais, ansiando pela continuação da série, que já possui quatro livros publicados e um quinto a caminho. Também fiquei pensando que, se pudesse escolher, adoraria passar minha velhice em Cooper's Chase cercado de bons novos amigos. Rindo, investigando, aprendendo — e, acima de tudo, sentindo que ainda há muito a viver.





















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