“Cloud”: um thriller que materializa o ódio nascido no campo virtual

Críticas Gerais

Confesso que não tenho tanta familiaridade com o trabalho de Kiyoshi Kurosawa, então, depois de assistir “Cloud”, na última sessão do último domingo, numa sala quase vazia do Cine Belas Artes, voltei pra casa refletindo muito sobre o que tudo aquilo significava.

 

Eu não li nada sobre o filme antes da sessão e, pra ser sincero, estava esperando um terror sobrenatural na linha do ótimo “Pulse” (2001) — um dos grandes clássicos do j-horror contemporâneo, que inclusive também foi dirigido por Kurosawa.

 

Se assim o fosse, estaríamos falando de um filme que transforma os horrores do dia a dia em uma alegoria fantasmagórica, distante em termos de realismo, mas efetivo ao materializar as paranoias atreladas ao estado atual do mundo. Em “Pulse”, é exatamente isso o que vemos: uma hipérbole do que as consequências da nossa relação com a internet poderiam ser, mas que, no fundo, traduz muito bem os efeitos do rápido desenvolvimento tecnológico da virada do século e das consequências que tal fenômeno traria para a sociedade dali em diante. Hoje pode parecer anacrônico, mas se assistirmos ao filme de Kurosawa sob a perspectiva de uma pessoa no início dos anos 2000, ele assume um aspecto realmente perturbador.

 

Mas “Cloud” não é sobre fantasmas. Ou, pelo menos, não os que habitam o campo metafísico.


O filme acompanha Yoshii (Masaki Suda), um jovem trabalhador de uma fábrica que, desiludido com a rotina e recusando uma promoção oferecida pelo chefe, decide abandonar a segurança do emprego formal para investir em um negócio próprio. Esse “negócio” consiste basicamente em vender produtos baratos e de qualidade duvidosa pela internet, por meio de uma plataforma que ele alimenta com imagens editadas e descrições enganosas. Ao seu lado está Akiko (Kotone Furukawa), a namorada que, num misto de apoio e cumplicidade, acompanha o namorado em sua decisão de trocar a cidade por uma casa afastada nas montanhas, acreditando que o isolamento lhe dará foco total para expandir seu pequeno império on-line.

 

O que Yoshii não imagina é que, entre os clientes enganados, há homens com passados violentos e ligações nada amistosas. Secretamente conectados por um fórum obscuro da internet, eles começam a rastrear sua localização, motivados tanto pela sede de vingança quanto pela ânsia de transformar aquela caçada em um espetáculo transmitido em tempo real. Aos poucos, a liberdade que Yoshii julgava ter conquistado se transforma em um cerco sufocante, onde ele passa a perceber que o perigo pode estar não apenas atrás de uma tela, mas ao seu redor, respirando o mesmo ar.
 


Não é preciso muito esforço para entender que a ideia de Yoshii será como dar um tiro no pé. Mesmo antes da mudança para o interior, alguns breves lampejos sugerem que ele está sendo observado. Esse ponto merece destaque: a colaboração entre Kurosawa e o diretor de fotografia Yasuyuki Sasaki é cirúrgica. A decupagem investe em movimentos mínimos e enquadramentos que exploram cantos vazios dos cenários, criando no espectador aquela sensação incômoda de que algo se move no campo periférico da visão. O efeito é tão sutil que quase se confunde com paranoia — mas cedo ou tarde, percebemos que não é apenas impressão.

 

O primeiro ato — e parte do segundo — é de domínio total do diretor sobre a nossa atenção. Kurosawa desenrola aos poucos uma avalanche de consequências para as escolhas do protagonista. Particularmente, vi ali a possibilidade concreta de que o filme fosse se revelar terror clássico, e quando os verdadeiros fantasmas de carne e osso começaram a se insinuar, fiquei ainda mais desconfortável na cadeira do cinema. 

Aos poucos, o filme abraça uma transformação radical: o drama psicológico e silencioso dá lugar a um thriller físico e violento, e essa mudança de registro não é suave. Ela nos transporta, abruptamente, de um suspense slow-burn para um jogo de perseguições, ameaças e confrontos sanguinários.


 

Boa parte do clímax se passa em uma fábrica abandonada. É ali que Kurosawa organiza uma tensão física palpável, com personagens armados, ameaças trocadas, jogos de poder que lembram filmes de sequestro e vingança dos anos 1970, misturados com a encenação quase irônica de violência que vemos hoje no mundo real — onde tudo precisa, de alguma forma, ser registrado e “postado”. Foi nesse ponto que, durante a sessão, eu me vi dividido. De início, achei as ações dos vilões erráticas demais — uma hora implacáveis, outra, pateticamente indecisos, lembrando aqueles antagonistas do Pica-Pau que perdiam a chance de pegar a presa pela simples inabilidade em concluir suas investidas contra o inimigo. Mas, pensando depois, percebi que isso é parte do ponto do filme.

 

Lendo entrevistas e críticas posteriores, entendi que Kurosawa parece ter construído esses antagonistas como a encarnação física do ódio que circula livremente no mundo virtual. Essa lógica de comportamento é muito real. Atrás de um perfil falso, a agressividade se torna ilimitada, mas no mundo físico, quando a retaliação exige decisão imediata e ação concreta, as pessoas recuam ou demonstram incompetência.

 

Em “Cloud”, esses homens convergem para Yoshii não apenas porque foram enganados, mas porque ele funciona como catalisador de todas as frustrações que carregam: a vida medíocre, o fracasso profissional, o ressentimento invisível. Um deles, descobrimos, chegou a matar a esposa e a filha sem motivo aparente — um passado que, no mundo das telas, poderia se perder no anonimato, mas que na vida real é uma ferida exposta.

 

Há também o ressentimento contra quem ousa romper com o script social. Yoshii recusou emprego estável, dispensou a chance de promoção, desprezou sociedades “lucrativas” e decidiu viver isolado com a namorada — afrontando, assim, todo o discurso meritocrático vendida como “o certo a fazer”. E, pior para seus inimigos, passou a prosperar com isso, mesmo que de forma duvidosa.

 

“Cloud” me parece, sobretudo, uma crítica disfarçada ao imobilismo de uma sociedade incapaz de escapar de seu próprio sistema. Talvez à primeira vista, alguns personagens pareçam planos e pouco desenvolvidos, mas isso não é um mero descuido. Kurosawa transforma essas figuras em arquétipos do cidadão frustrado com a realidade, cuja única zona de poder é o território da internet — e que, quando transposto para o mundo físico, mostra-se descoordenado, inapto e, no fundo, menos ameaçador do que parecia.

 

Nesse sentido, o filme satiriza tanto os justiceiros virtuais quanto as estruturas sociais que produzem esse perfil humano. Pessoas que consomem compulsivamente, que vivem conectadas a serviços de streaming e redes, e que são incapazes de traduzir em ação concreta o discurso inflamado que sustentam nas telas.

Talvez a cena mais emblemática dessa ideia seja a decisão do grupo de transmitir ao vivo a execução de Yoshii. Afinal, o ato hediondo só alcança seu sentido se for convertido em espetáculo e levado ao ambiente que deu origem ao ódio — o virtual. A violência deixa de ser apenas vingança e se torna entretenimento ao vivo, validado pela lógica das redes.

 

Não por acaso, o filme termina de maneira seca, sem catarse heroica. A última fala — que não vou reproduzir aqui — tem um peso silencioso. Na minha sessão, as poucas pessoas presentes saíram em silêncio, mesmo acompanhadas. É como se todos precisassem de alguns minutos para processar o que viram.


 

Pouco importa se você vai encarar “Cloud” como um suspense, drama ou sátira. A força do filme está justamente em brincar com essas fronteiras e desmontar expectativas. Kurosawa prova que entende a internet não apenas como tema, mas como algo que já molda completamente a maneira como habitamos o mundo físico. E talvez a mensagem mais incômoda que “Cloud” nos deixe seja  a de que, se o ódio que circula on-line pudesse se materializar de fato, ele teria rosto, corpo, hesitação e crueldade. E provavelmente seria muito parecido com aqueles que cruzamos todos os dias — no transporte público, na fila de um mercado, no trabalho — sem jamais imaginar o que carregam por dentro.

 

O filme segue em cartaz em poucas salas de São Paulo e ainda não tem previsão de estreia nos streamings. Se essa resenha despertou sua curiosidade, recomendo que assista na tela grande, para sentir cada silêncio e cada respingo de tensão que Kurosawa constrói com tanta precisão. Depois, volte aqui e me conte: você acha que Yoshii merecia o tratamento que recebeu, ou foi apenas mais uma vítima de uma engrenagem cruel que todos ajudamos a mover?

 

Comentários 2

C
Carlos Barnabé19 de agosto de 2025
Adorei o texto, Rafa!</br>acho que o filme seria um pouco pesado pra mim, mas fiquei com curiosidade.
V
VanessaFreitas012 de agosto de 2025
Eu adorei seu texto! Fiquei muito animada para ver o filme depois de ler. Eu adorei o comentário de Pica-Pau ahahaha. Parece ser um filme muito forte.

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