Um anti-herói vale mais do que um herói?
Críticas Gerais"O Corvo" é a prova de que nem tudo que é datado é ruim.

À primeira vista, o filme parece um devaneio de adolescente gótico nos anos 1990: tudo escuro, contraste no talo, guitarras distorcidas e um arlequim ultraviolento como personagem principal. Poderia facilmente se degringolar em uma farofada à lá Blade se não fosse a delicadeza com que Alex Proyas trata o material-fonte: uma narrativa mítica inspirada por uma aterradora tragédia pessoal.
James O’Barr, o autor por trás da obra homônima de 1994, escreveu a graphic novel para lidar com a perda de sua namorada, morta em um acidente de carro. Com seu traço forte e monocromático trouxe à vida Eric Draven, um rockstar que volta dos mortos em busca de justiça pelo assassinato de sua noiva por gangsters locais.
Meio Batman, meio Arlequim, Draven conquistou a cena dos quadrinhos underground. Surfando na onda de histórias de super-herói mais adultas, dramáticas e com uma pegada noir que dominava o mercado do final dos anos 80 e início dos 90, O Corvo juntou-se a Sandman e Batman Ano Um como símbolos definidores da estética alternativa da geração X.
Lendo a graphic novel, que compila todas as histórias lançadas entre 1989 e 1990 dá para entender perfeitamente o porquê de adaptá-lo para as telas: o livro é absolutamente cinematográfico, e de um jeito totalmente único.
Normalmente quando falam que uma obra literária é cinematográfica, evocam um ritmo rápido e evocativo de convenções hollywoodianas, como uma estrutura sólida de cenas e um determinado ritmo de diálogo.

O Corvo não é exatamente assim.
Suas páginas parecem menos um storyboard do MCU e mais um filme de Murnau ou Fritz Lang. Os desenhos exalam uma cinematografia com forte contraste, sempre em preto e branco. As cenas de ação são, de fato, violentas e gráficas, mas sempre dotadas de imenso peso emocional e moral.
Levar isso às telas dos cinemas dos anos 1990 exigia um cuidado extremo com a inspiração estética. Qualquer deslize poderia transformar a história de O’Barr em um pastiche, exigindo alguém com a competência de navegar pelos múltiplos tons e sentimentos da obra sem se levar a sério demais.
Este alguém foi o então desconhecido Alex Proyas.
Proyas traduziu perfeitamente a atmosfera expressionista da obra original para as telonas, mantendo seus intrínsecos luto e tristeza. A cidade ecoa Metropolis, o submundo é claramente inspirado por M e a própria caracterização de Draven, interpretado pelo extremamente carismático Brandon Lee, parece diretamente vinda do set de O Gabinete do Doutor Caligari.
Esse cuidado com o material fonte e com as referências estéticas deste material fazem com que O Corvo seja uma das mais bem sucedidas adaptações de quadrinhos do cinema. O foco está em ser fiel ao tom e à mensagem, e não necessariamente à sucessão de fatos. É uma prova de que mudanças no enredo podem ajudar na transição de uma mídia para a outra, e, paradoxalmente, ser mais adequado do que uma filmagem literal de sua origem.

A primeira mudança está no modo como o assassinato acontece.
Nos quadrinhos, Draven e sua esposa Shelly são mortos pela gangue de Top Dollar, um criminoso local em um latrocínio impessoal e aleatório em uma estrada. No filme (sem spoilers, isso acontece logo no início), os dois são assassinados em uma espécie de precursor do The Purge, a chamada Noite do Demônio. Esta mudança eleva à versão fantasiosa de Detroit a praticamente um personagem dentro do filme, e não apenas um pano de fundo. A imundície de seus cortiços encimados por arranhas-céus é purgada a cada investida do Corvo, evoluindo junto com seu (anti) herói.
Ainda falando de Top Dollar, há outro grau de liberdades tomadas com este personagem. Na versão de O’Barr, ele é apenas um bandido local; cruel e rude, mas comum. Proyas o adaptou como um chefão do crime de Detroit, uma espécie de vampiro traficante que tem um relacionamento incestuoso com a própria irmã, inexistente na HQ. Novamente, a visão mais intensa e menos realista do vilão permite uma maior liberdade com a caracterização dos personagens e do modo como se expressam.
Detroit não é Detroit, mas uma espécie de Gotham ainda mais dura. Essa caracterização fantasiosa e lúgubre permite uma maior suspensão de descrença, trazendo profundidade ao seu mundo que é parte caricatura, parte descrição factual da violenta urbe contemporânea.
Por último, o roteiro é mais linear e sequencial.
Os quadrinhos não foram escritos como um romance, e sim uma história em série. Há menos preocupação com ritmo, mais repetição e personagens secundários menos expressivos, pensados para deixarem as páginas após uma ou duas edições. O filme amarra todas as histórias da cidade com a de Draven de modo sucinto, trazendo não apenas um roteiro sólido mas uma edição e um pacing envolventes.
Este domínio do fazer cinematográfico do diretor se traduz também nas áreas que uma HQ, por ser uma mídia desenhada e estática, não é capaz de desenvolver, como a potência sônica do filme. A trilha sonora cuidadosamente curada com rock soturno e atmosférico: The Cure, Nine Inch Nails , Violent Femmes e até o agressivo metal do Pantera em momentos mais violentos trazem uma dimensão sonora impossível de atingir na mídia original.

Por último, um ponto que talvez merecesse um artigo à parte é a atuação impecável de Brandon Lee. O jovem ator de apenas 28 anos exibia um carisma magnético e um domínio físico da tela herdado de seu pai, o lendário Bruce Lee. Seu sorriso largo e voz aveludada impedem que olhemos Draven apenas como uma entidade obstinada e violenta e sim como um amigo; uma figura real, que evoca profunda empatia ao acompanharmos sua subida do inferno.
De modo coerente com toda a melancolia que envolve a obra, Lee morreu no set, faltando poucas cenas para terminar o filme. Uma arma disparou durante uma cena, caso de negligência de um contrarregra. O longa foi finalizado digitalmente, com dublês utilizados no lugar do ator.
Apesar de toda a tragédia, O Corvo é uma obra-prima dos anos 1990, e merece ser tratado como clássico, não apenas como uma peça retrô.









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