Um elástico de cabelo e sua emancipação cinematográfica.
Narrativa"Elástico?" A pergunta de uma palavra, em uma cena que dura aproximadamente 3 segundos, foi o que mais nos marcou em um filme com hienas, efeitos, tiros, porrada e bombas. Talvez você já saiba do que estamos falando, mas se não, calma, a gente explica:
Só para dar um pouco de contexto, vamos voltar para 2017. O filme Mulher Maravilha estava estreando nos cinemas, sendo o primeiro filme de super-herói protagonizado e dirigido por uma mulher. Como grandes fãs do gênero, fomos assistir ao filme com alguma expectativa, mas ainda assim fomos surpreendidas por um sentimento coletivo feminino de empoderamento e descobrimos uma representatividade que nem sabíamos que faltava. Ver Gal Gadot, mesmo com sua atuação questionável, salvar o mundo trouxe um sentimento novo para a maioria das mulheres. E sim, Viúva Negra já fazia parte dos Vingadores, mas era sempre tratada como uma personagem secundária e com a sensualidade sendo uma de suas maiores "armas".
Foi legal ver Hollywood descobrindo que mulheres vão ao cinema e gostam de se ver no poder. O sucesso de Mulher Maravilha abriu espaço para termos Capitã Marvel, She-Hulk, Zuri, Feiticeira Escarlate e afins. No entanto, ainda assim, todas elas estão muito longe da realidade de nós, meras mulheres mortais, que, às vezes, tudo o que queremos é uma representatividade um pouco mais perto da nossa realidade, onde conseguimos nos identificar.
E aí você deve estar pensando: "Tá legal, mas e o elástico de cabelo nisso tudo?"
Bom, vamos ao passado novamente:
Era o início do ano de 2020. O ano parecia promissor, cheio de sonhos e esperanças. Duas amigas vão ao cinema como parte de uma tradição mensal. O único filme disponível na data era Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa. Com um certo preconceito por esse nome, elas compram o ingresso e ganham uma das poucas surpresas agradáveis que esse ano reservava.
O filme é narrado pela Arlequina, interpretada por Margot Robbie, e conta os acontecimentos depois do término do relacionamento tóxico com o Coringa. Basicamente, nossa anti-heroína se une à Canário Negro, Caçadora e Renee Montoya para salvar uma menina de um criminoso de Gotham.
Logo no início do filme, já dá para perceber que o filme é dirigido e produzido por uma mulher, pois o figurino da Arlequina ganhou alguns bons centímetros extras de comprimento. Sem perder a personalidade da personagem, os novos figurinos dão mais conforto e praticidade para as cenas de luta e do dia a dia. E pode parecer clichê, mas é revigorante ver uma mulher poder ser durona sem ter seu corpo completamente exposto ou sensualizado.
Mas chega de enrolar, vamos à tão esperada cena do elástico. Já para o final do filme, nossas mulheres estão em uma luta contra vários homens mascarados. Em dado momento, a Canário Negro, interpretada por Jurnee Smollett, se irrita por suas madeixas ficarem caindo em seu rosto e atrapalhando seus golpes. Vendo isso, Arlequina se aproxima, tira um elástico de cabelo do bolso de sua calça, estende a mão e oferece a ela com a pergunta: "Elástico?" Ela aceita, prende o cabelo e volta a lutar. Sim, essa interação é super rápida, e acreditamos que para muitos passa despercebida. Mas, neste momento, a gente se olhou no meio do filme e trocou um olhar de cumplicidade, como se alguém tivesse resolvido todos os problemas do mundo. Nos sentimos vindicadas por todos os anos em que gritamos frustradas: "POR QUE ELA NÃO PRENDE ESSE CABELO?" para alguma mulher em alguma cena de ação.
Pode parecer pouco, mas esse momento foi tão emblemático para nós, pois são poucos os filmes que conseguem retratar algo tão significativo de forma tão simples. Existe quase um pacto entre as mulheres de cabelos compridos de sempre sair de casa com um elástico de cabelo extra. Faça o teste: pergunte para qualquer mulher se ela já viveu alguma situação parecida em que pegou emprestado ou emprestou um elástico de cabelo para uma amiga, e eu aposto que a maioria vai falar sim! Ver um pequeno ato diário de sororidade que praticamos e que passa despercebido sendo representado em um filme de ação despertou uma identificação única e, com ela, uma emoção que não esperávamos. Tanto que, para este texto, a gente teve que dar uma pesquisada na sinopse pela internet para lembrar alguns dos nomes. E se você perguntar como o filme acaba, a gente não lembra muito bem. Mas a cena do elástico e a nossa reação ao ver isso juntas, a gente nunca esqueceu.
Existem também casos opostos, onde acontece algo tão surreal que te faz sair completamente do filme, pois não há absolutamente nenhuma justificativa que possa tornar aquela escolha criativa aceitável. No filme Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros, o personagem de Chris Pratt olha para sua colega de cena Bryce Dallas Howard de salto alto no meio da floresta fugindo de um dinossauro e diz que ela precisa tirar aquele salto ridículo. A personagem ignora o comentário e segue o resto do filme correndo pelo parque com seu scarpin salto 15. O feito foi tão absurdo que gerou polêmica na época. Em uma entrevista, perguntaram para Howard o que ela achava de uma mulher correndo de salto alto e ela respondeu que via aquilo como um superpoder de sua personagem, e mostrava a confiança e competência da mesma. Mas logo depois ela comenta que precisou treinar para conseguir gravar a cena e que até quer colocar em seu currículo como uma habilidade especial. Entende o problema da coisa? O discurso da mulher segura em seu sapato é lindo, mas só funciona na ficção mesmo. Quer dizer, nem na ficção, né? Porque em um filme cheio de dinossauros, a cena que causa mais estranheza é a que mostra algo com que nenhuma mulher se identificaria.
E o que tiramos de tudo isso? Que precisamos de mais diversidade na indústria do cinema. Nossa, mas isso escalou meio rápido, né? Sim, porém é verdade. Pois só quem vive a realidade de seu grupo consegue ter as percepções necessárias para dar vida a ele nos pequenos detalhes. E são neles onde a identificação se concretiza, naquilo que parece mínimo, mas que viram 3 segundos que você leva para sempre e que, 5 anos depois, duas amigas ainda lembram exatamente o que sentiram naquele momento. Em um mundo onde sempre achamos que temos que entregar mais e no volume mais alto, aqui ficam os nossos argumentos de que não precisa de tanto, apenas que mais pessoas contem suas histórias para que, nos pequenos detalhes, a gente se encontre numa sala de cinema.











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