F1: O Filme (2025): entre a propaganda e o tédio
Críticas GeraisTalvez Tom Cruise tenha me acostumado mal. Top Gun: Maverick (2022) é provavelmente o blockbuster que mais amei nos últimos tempos (torci muito por ele naquele Oscar, confesso). E, por mais que não seja muito afeita a acompanhar a Fórmula 1, reconheço que é um esporte que conversa muito bem com o cinema. A sequência do acidente de Alfonso de Portago (Gabriel Leone) em Ferrari (2023), de Michael Mann, merece todas as hipérboles positivas e Rush - No Limite da Emoção (Rush, 2013) é, possivelmente, o que há de melhor no cinema de Ron Howard. Logo, a ideia de um filme que acompanhasse o atual momento da categoria, com a assinatura de Joseph Kosinski (mesmo diretor de Maverick), era, no mínimo, intrigante. Mas a verdade? É que falta a maluquice do seu Cruise para tirar o filme do limiar entre a propaganda e o tédio.

Não que não haja star power em F1: O Filme (2025). Sai Cruise, entra Brad Pitt, astro do mesmo nível de fama e relevância que o colega com quem dividiu a cena em Entrevista com o Vampiro (Interview With The Vampire, 1994), de Neil Jordan. Subestimado na comédia, Pitt até que se sai bem ao vender o lado mais despreocupado de Sonny Hayes, um cinquentão tirado da aposentadoria por um ambicioso empresário (Javier Bardem) disposto ao tudo ou nada para salvar a escuderia Apex Grand Prix. O problema é que, para que a gente compre o que está na tela, é preciso querer torcer por Sonny, e falta a ele a aura de azarão que Cruise consegue vender tão bem em filmes como Jerry Maguire - A Grande Virada (Jerry Maguire, 1996), de Cameron Crowe, A Firma (The Firm, 1993), de Sydney Pollack, e, claro, nas investidas como o Maverick dos dois Top Gun (o de 1986, dirigido por Tony Scott e o já citado filme de 2022 dirigido por Kosinski). A comparação é inevitável, até porque Cruise já foi o protagonista de um filme sobre automobilismo (Stock Car, para ser mais exata), Dias de Trovão (Days of Thunder, 1990), também de Tony Scott e, assim como F1 e os Top Gun, produzido por Jerry Bruckheimer.
F1 preenche todos os requisitos do blockbuster, da trilha que eu adoro chamar de playlist Rock para Iniciantes ao romance que nasce lentamente da implicância mútua — mas, novamente, volto a Dias de Trovão, porque falta, digamos, explosão entre Brad Pitt e Kerry Condon (algo que sobrava entre Cruise e Kidman em uma dinâmica semelhante no filme de 1990). Ao mesmo tempo, há uma rima interessante com a indústria do entretenimento: até me pergunto se era um filme sobre Fórmula 1 mesmo ou sobre Hollywood, já que os poucos diálogos que prometem mais profundidade aos personagens tocam em temas que são comuns aos dois mundos. O executivo interpretado por Tobias Menzies que se informa sobre a categoria com a série Drive to Survive, da Netflix, não é muito diferente das figuras que estão mandando e desmandando na indústria do cinema a despeito de uma flagrante falta de conhecimento sobre a sétima arte. A apresentação do personagem de Pitt também tem uma construção que brinca com isso: quando ele aparece de frente pela primeira vez, descendo de um trailer em direção à pista das 24 Horas de Daytona, a imagem poderia muito bem ser do ator saindo do veículo para um set de filmagem.
Colocado em oposição a Hayes, o jovem piloto Joshua Pearce (Damson Idris) é um dos personagens que fazem essa ponte nos assuntos em comum, como a ânsia em ter mais seguidores e em aparecer para conseguir mais oportunidades fora daquela escuderia fadada ao fracasso. O problema é que, na maior parte do tempo, o filme parece não saber o que fazer com ele. As diferenças geracionais que prometem conflitos logo são esquecidas, e a história paralela com a mãe fica pelo caminho. Tudo sobre ele serve para o desenvolvimento do piloto vivido por Pitt, e a sensação que fica é de oportunidade perdida, e não apenas pelo que ocorre com ele nas pistas.
O próprio personagem de Pitt não é lá aquelas coisas. Em determinado momento, quando alguém lhe pergunta qual a sua história e por que ele ainda está ali, correndo, Sonny Hayes diz que não há nada especial para contar. De fato. Há, sim, algumas revelações aleatórias e flashback, incluindo dois com referências a Ayrton Senna, que seria contemporâneo do personagem nas pistas nos anos 1990). Mas, para além disso, o filme não se preocupa tanto em dar profundidade ao personagem sem precisar recorrer a diálogos expositivos. Volto mais uma vez à comparação com Cruise: as histórias de Maverick, Jerry Maguire, Ethan Hunt e Cole Trickle estão visíveis no rosto do ator. Talvez falte a paixão pelo personagem estampada no rosto de Pitt em F1, e é isso o que torna tão estéreis momentos como o epílogo do filme.
Como já era de se esperar, Kosinski retoma o fôlego do filme com as cenas de corrida, como a reestreia de Sonny no circuito de Silvestone, no Grande Prêmio da Inglaterra. O diretor consegue transmitir a claustrofobia daqueles carros e como detalhes são decisivos. A última prova, em especial, devolve um pouco da emoção que falta durante a maior parte da história. Ali, Pitt consegue emocionar no momento em que Sonny, enfim, transcende na pista e paga uma dívida pessoal de mais de 30 anos (ainda que, durante a maior parte do filme, essa dívida não pareça ser tão pesada assim). É como se aquela pista em Abu Dhabi fosse o próprio filme se recuperando a tempo de sair do campo do esquecível e da propaganda*. Pena que, longe daquelas curvas, a F1 de Joseph Kosinski não tem vida.
*F1 é produzido por Lewis Hamilton e conta com aparições do britânico e de outros pilotos da Fórmula 1, como o holandês Max Verstappen, o monegasco Charles Leclerc e os espanhóis Carlos Sanz e Fernando Alonso. O filme conta, inclusive, com imagens feitas no circuito.



























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