O CRIME POP DE “A RAINHA DIABA”

Críticas Gerais

Uma dos maiores responsáveis pelo sucesso de Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002) é a abordagem pop de sua direção. Apesar da crueza da imagem e dos acontecimentos, a trilha sonora, a montagem, os diálogos e a câmera ágil transformam a tragédia do crime na comunidade em algo “divertido”, que choca mas também empolga a quem assiste. Enquanto assistia a A Rainha Diaba (Antônio Carlos da Fontoura, 1974), me surpreendi ao notar o quanto o filme de Kátia e Fernando pega emprestado do longa dos anos 70. E hoje trago este longa para estudar como Antônio Carlos popfica a saga da traficante Rainha Diaba (Milton Gonçalves).

 

 

Desde o primeiro segundo o filme cativa a minha atenção, dando o tom do que veremos a seguir. Para refletir o escândalo e a vibração queer do mundo da Diaba, os créditos iniciais são coloridos, artesanais e embalados pela solar (e popular) Índia, cantada por Paulo Sérgio. Quando os créditos acabam, a câmera revela um mundo que não pega leve nas cores, nos penteados e nas decorações. Os traficantes convidados pela Rainha são marcantes, cada um à sua maneira. E é neste aspecto que o filme mais se diferencia de Cidade de Deus: ao invés de filmar seus personagens sob uma fotografia suja e obscura, o longa de 1974 os ilumina com uma luz de boate - o que não diminui a crueldade de suas ações.

 

A primeira vez que vemos a Diaba são suas pernas sendo depiladas por uma navalha afiada. Ela se mantém calma enquanto os seus convidados apresentam a urgência dos últimos acontecimentos. Apesar de sua aparência tranquila, a reação dos outros personagens a partir de seus movimentos é o que expõe o seu nível de ameaça. O contraste entre a delicadeza e a violência atravessa todo o filme.

 

 

 

 

 

Mesmo Catitu e Bereco, dois criminosos cis-hétero do filme, interpretados por Nelson Xavier e Stepan Nercessian, são introduzidos sob o prisma do desejo: falam de mulheres, mas há certa tensão sexual entre os dois no quadro. Quando Bereco chega em casa e encontra sua namorada Isa Gonzalez (Odete Lara), os dois se agridem antes de qualquer expressão de amor - e só transam quando o personagem de Stepan exibe uma arma e se vangloria do seu futuro no crime. Ao mesmo tempo em que nos chocamos pela violência, somos seduzidos por ela, como Isa foi pelo seu amante. 

 

Outra arma de Fontoura para popficar o seu mundo do crime é o humor, que exibe nas gírias e personalidades exageradas de seus habitantes, na massa de gays submissos à Diaba e nos interesses sexuais insaciáveis da Rainha. Mesmo em sua violência, de vermelho vibrante e exagerado, o filme exibe seu humor: quando Bereco desce a porrada no colega que sugeriu sua morte, a trilha sonora tem elementos de samba que exaltam o divertimento da direção.

 

 

A música original e as canções adicionadas ao filme são um elemento que torna essa trama criminal ainda mais pop. Além das músicas black estadunidenses, muito comuns nos filmes blaxploitation da época, A Rainha Diaba é recheado de canções nacionais de sucesso. Já suas composições originais são enérgicas, usando de influências brasileiras - como o samba que citei - mas sem economizar no uso da guitarra elétrica para intensificar os momentos de violência.

 

Cada um dos aspectos aqui citados é referenciado de alguma forma em Cidade de Deus - seja pela trilha popular, pelas gírias e pelo humor, seja pela tragédia do ciclo criminal que assola a comunidade. Apesar de empolgar o espectador em seus momentos mais agressivos, A Rainha Diaba pune seus personagens pelo exagero na violência. Num mundo em que a morte e a diversão se misturam, todos os que se lambuzam no mel da violência acabam sendo vítimas do excesso. A excentricidade pop que inicia o filme, com créditos de arte artesanal vibrante, é a mesma que o encerra, nos entregando um final exagerado, sanguinolento e cheio de reviravoltas.

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