Duster: por que estamos falando tão pouco da nova série de J.J. Abrams?
Críticas GeraisNeste fim de semana, ao abrir o aplicativo da Max, dei de cara com o primeiro episódio de Duster. A princípio, não dei muita bola. Parecia mais uma série de ação ou ominho. Mas a arte — com o rosto de Josh Holloway — me deixou curioso. Afinal, eu não tinha visto campanhas, trailers, posts, comentários ou absolutamente nada sobre a série. O que, convenhamos, é bem curioso para uma produção da HBO Max que retoma a parceria entre J.J. Abrams e Josh Holloway — a mesma de Lost. Talvez justamente por isso a experiência tenha sido tão boa: entrei no piloto sem saber o que esperar — e encontrei um thriller policial com ritmo, charme e ousadia.

Uma estreia quase escondida
A sensação de “descoberta” foi real. Em tempos de lançamentos mega divulgados, com trailers que praticamente contam a história inteira, tropeçar em Duster sem spoilers, sem ruído, foi um presente. A série parece abraçar esse espírito misterioso desde o começo, nos levando pelas estradas poeirentas e perigosas do sudoeste americano dos anos 70, com um clima que mistura tensão e aventura.
Ver a retomada da parceria entre J.J. Abrams e Josh Holloway me levou direto para a época de Lost. A expectativa vem no pacote, claro. Aqui, Holloway vive Jim Ellis, um ex-veterano do Vietnã que agora é motorista de fuga para um sindicato do crime. Ele traz de volta aquele carisma bruto, o sorriso canastrão, a entrega física — tudo que fez de Sawyer um ícone — só que agora com uma camada de cansaço e desencanto que combina muito com a vibe da série.

Policial, mas com alma e estilo
Duster é uma verdadeira homenagem aos thrillers policiais dos anos 70. A ambientação é impecável: carros cromados, figurinos incríveis, trilha sonora marcante, fotografia quente e granulada. A direção de Steph Green (que já brilhou em The Americans e Watchmen) sabe equilibrar ação com momentos mais contemplativos. A gente tem tempo de sentir o peso das escolhas, saborear os diálogos e se deixar levar.
O episódio de estreia apresenta duas tramas que logo se cruzam: de um lado, Jim em uma perseguição de carro digna de Bullitt; do outro, Nina Hayes (Rachel Hilson, de This Is Us), a primeira agente negra do FBI, enfrentando racismo institucional e sendo designada para investigar uma organização criminosa no Arizona.
Escolher uma mulher negra como protagonista num ambiente historicamente branco e masculino não é só ousado — é necessário. LaToya Morgan, showrunner da série, falou em entrevistas sobre o orgulho de contar essa história e abrir caminho para novas vozes. Nina é uma personagem complexa: competente, mas vulnerável; determinada, mas constantemente duvida de si mesma, seja pelos criminosos que enfrenta ou pelos colegas do FBI que a desacreditam o tempo todo. O fato de ela estar no FBI em 1972 é anacrônico, sim — mas é proposital. Serve para amplificar o impacto da história e nos fazer pensar: o quanto a gente avançou (ou não) em termos de igualdade?
E Duster não se contenta em colocar diversidade apenas em cena. LaToya Morgan fez questão de montar uma equipe plural também nos bastidores. Isso se reflete na densidade dos personagens, na sensibilidade com que temas raciais e de gênero são tratados e no cuidado de fazer de Nina uma pessoa real — com falhas, medos, ambições.

Dois outsiders, uma conexão improvável
Jim e Nina são o coração do episódio. Ele, um fora da lei quase por acaso. Um homem branco que trabalha para uma organização de homens negros. Ela, uma agente federal negra e solitária num sistema branco, masculino e hostil. Ambos, à sua maneira, estão à margem, lutando contra estruturas que querem engolir ou se aproveitar dos dois.
Rachel Hilson entrega uma atuação cheia de sutilezas — Nina é firme, mas humana. E Holloway continua dominando cena a cena, seja dirigindo seu Duster vermelho-cereja ou nos momentos de dilema moral. A química entre os dois promete render.
Keith David, como o vilão Ezra Saxton, é outro ponto alto. Não é só um chefão violento: ele tem uma certa melancolia entediada que o torna ainda mais ameaçador. A série não tem medo de flertar com o absurdo, seja em cenas brutais ou situações inusitadas — como Jim tentando reanimar um cara com o peito aberto numa mesa de cirurgia.
Esse tom, que mistura crime, humor ácido e bizarrices, lembra um pouco Tarantino ou Scorsese — e não é à toa: LaToya Morgan já citou essas referências. O resultado é uma série que caminha por terrenos familiares, mas com personalidade e estilo próprios.

Referências além da tela
Algo que me chamou atenção foi como o clima da série me lembrou o jogo No One Lives Forever: a protagonista feminina forte, o universo setentista cheio de conspirações, o humor sutil, a estética retrô… tudo conversa. Claro, Duster tem os pés no crime organizado norte-americano, e não na espionagem da Guerra Fria, mas a sensação é parecida: uma mulher rompendo barreiras num mundo que não foi feito para ela.
É claro que o roteiro do piloto não reinventa a roda. Apresenta os protagonistas, os conflitos, os coadjuvantes excêntricos e o encontro inevitável dos dois caminhos. Mas faz isso com elegância. Os diálogos são afiados, a direção é segura, e há espaço para o silêncio, o olhar, a tensão construída aos poucos.

Sacode a poeira e dá o play
Duster mergulha nos anos 70 não só pelo visual, mas pelo espírito. Josh Holloway resumiu bem numa entrevista: “Coisas ruins acontecem, mas você não se sente tão mal com isso.” A série tem violência, corrupção, dilemas morais — mas tudo com um charme quase lúdico, que torna a experiência prazerosa.
Ela não esconde suas influências: de Starsky & Hutch a faroestes urbanos e dramas de estrada. Mas não fica na cópia. Brinca com essas referências e cria algo novo. Ou seja, não é uma revolução do gênero — e tudo bem. O que entrega já é mais do que suficiente: um piloto sólido, personagens interessantes, um clima envolvente e aquela sensação de que a televisão segue entregando obras de qualidade.
A falta de divulgação por aqui pode ter sido um risco. Mas, para mim, foi o que tornou tudo ainda mais gostoso. Descobrir Duster sem saber o que esperar me lembrou por que vale a pena sair da nossa bolha e dar play em algo novo. E mais: esperar por eles. Afinal, são oito episódios, lançados às quintas-feiras. Em tempos de recomendações algorítmicas e binge watching, considero isso uma vitória e tanto.













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