The Pitt resgata o melhor da TV dos anos 2000.
Críticas GeraisThe Pitt — série médica que encerra a sua primeira temporada hoje, no Max — é a minha série favorita do ano.

Sei que ainda está cedo para afirmar isso, já que temos The Last of Us e Andor pela frente, ou que tivemos a excelente Adolescência, na Netflix, e a fascinante Ruptura, na Apple TV. Sem falar na divertidíssima The Studio, com Seth Rogen, satirizando bem descaradamente a bolha de Hollywood e seus perrengues infinitamente relacionáveis, para quem acompanha de perto a indústria do cinema.
Não importa. The Pitt é uma espécie de raridade, hoje em dia, e isso a coloca à frente de todas as outras, para mim. O seu apelo não está tanto num conceito inovador, no alto valor de produção, nos ganchos irresistíveis do mistério ou mesmo no trem do hype que acompanha tantas produções de marcas conhecidas e engajadas nas redes sociais. The Pitt é uma série sobre pessoas comuns — experientes e inexperientes, virtuosas e falhas, confiantes e inseguras — sendo bombardeadas por um grande volume de situações inesperadas e encontrando algum jeito de administrar tudo isso, com a pequena esperança de manter, ao final de tudo, o seu equilíbrio emocional, a sua capacidade de empatia ou até mesmo a sua integridade física.
Eu digo isso porque a série consegue estabelecer ótimos personagens e criar, o tempo todo, conflitos interessantes para eles resolverem, enquanto estrutura essa coleção de elementos narrativos de um jeito praticamente impecável: tramas maiores se esticam por dois, quatro ou até quinze episódios… enquanto tramas menores proporcionam uma satisfação imediata a cada capítulo, mantendo um ritmo super dinâmico na temporada e dando pequenos e importantes passos no desenvolvimento do elenco principal.

Na superfície, The Pitt seria apenas mais uma série médica, nos moldes de tantas produções inferiores e genéricas que sempre dominaram a televisão estadunidense, embora seja nítido que a sua referência maior seja ER (Plantão Médico) — talvez a mais famosa e considerada, por muitos, a melhor de todas — uma opinião com a qual eu concordo bastante, já que passei horas da minha infância e adolescência grudado na TV assistindo aos vários dramas humanos que se desenrolavam naquele seriado ou então me divertindo com os momentos involuntários de humor, considerando que sempre havia espaço para que houvesse alguma graça no meio da desgraça inerente a um Pronto Atendimento. ER sempre soube dosar drama e humor com bastante habilidade, algo que The Pitt também consegue fazer muito bem.
Aliás, essa comparação entre as duas produções não é feita à toa, já que The Pitt foi concebida por um time de veteranos de ER, sendo criada por R. Scott Gemmill e produzida por John Wells e Noah Wyle, que também protagoniza a série no papel de um personagem muito parecido com o seu Dr. John Carter, de ER. A semelhança foi tanta que os detentores dos direitos de ER (encabeçados por Sherri, viúva de Michael Crichton, criador do programa original) processaram o trio em 2024, mas a ação foi desmontada quando os advogados da Warner declararam que novo seriado possuía diferenças fundamentais para com o programa anterior.

Uma delas é o formato: uma temporada de 15 episódios, que abordam as 15 horas de um único plantão, num aceno bacana à série 24 Horas (outra preciosidade da TV de outrora). O resultado é que The Pitt se desenrola praticamente em tempo real, intensificando ainda mais a sensação de que estamos lado a lado com esse time de médicos veteranos e novatos. Seu cansaço é o nosso cansaço. Suas dores, também. Até a sua vontade de fazer xixi é plenamente assimilada por nós, enquanto testemunhamos a quantidade de vezes em que certo personagem entra no banheiro, apenas para ser interrompido (antes do ato) por mais uma emergência em curso.
Esse pequeno detalhe revela uma das coisas mais satisfatórias que existem em The Pitt: a construção gradual de arcos narrativos feitos do que chamo de migalhas de subtrama, que vão sendo espalhadas como tempero por cima das histórias maiores. Além do citado aperto na bexiga, algo semelhante ocorre na quantidade de vezes em que Whitaker, um dos internos novatos do plantão, tem o seu uniforme completamente sujo de fluídos corporais cada vez mais drásticos, ou então quando uma ambulância é roubada por elementos ocultos, e a equipe toda começa a apostar sobre quem furtou, porquê o fez e qual será o desfecho do caso.

E é claro que esses detalhes de humor, em contrapartida, alimentam o desenvolvimento dos personagens, já que a troca constante de roupa do Whitaker, por exemplo, acaba reforçando que ele é meio azarado, mas também paciente e capaz de aturar (quase numa boa) o que parece ser um plantão cada vez pior.
Outro elemento que me agrada muito aqui é a sensação de microcosmo presente nesse Pronto Atendimento. Séries de antigamente, para reduzir custos, aproveitavam bastante alguns poucos cenários, que se repetiam de tal maneira que nós, o público, sentíamos que aquele lugar nos era extremamente familiar. The Pitt faz algo semelhante ao explorar cada canto da clínica principal desse hospital fictício na cidade de Pittsburgh. Ao longo dos primeiros episódios da temporada, e muito por conta da presença dos médicos novatos (dentre eles, a Taylor Dearden, filha do Bryan Cranston de Breaking Bad), somos apresentados aos vários leitos, à sala de atendimento lotada, à recepção (que parece tão movimentada quanto a ponte da Enterprise) e aos locais de procedimentos cirúrgicos… e visitá-los constantemente faz com que nos acostumemos bastante com esses espaços.
Daí vem o evento clímax da temporada — que não vou entregar aqui — e reconfigura cada um desses lugares que a gente parecia conhecer bem, fazendo com que eles se transformem em um verdadeiro campo de guerra (ou a área médica de um campo de guerra) e mostrando o quanto cada personagem evoluiu e superou os testes menores, sendo capazes de confrontar o desafio final da história, que surge na forma de um Incidente com Múltiplas Vítimas.

Aliás, eu preciso elogiar também a equipe de filmagem e pós-produção, já que o trabalho de câmera sempre consegue evidenciar a urgência ou não dos atendimentos, caminhando de leito em leito e preservando a noção geográfica das cenas — onde cada personagem está e para onde ele se desloca — enquanto a montagem pega o que imagino ser um material bruto apocalíptico e interminável… e tira disso uma narrativa super coesa e habilidosa em trocar de núcleo e equilibrar tons diferentes, ao mesclar as histórias mais dramáticas com as mais bem-humoradas e nunca perder de vista a essência humana de cada parte desse todo.
Tanto é que o principal, para mim, dentre tudo o que mencionei aqui, é que The Pitt simplesmente esbanja carisma. Seja pela presença acolhedora (mas ocasionalmente severa) de Noah Wyle e sua barba maravilhosa, seja pela honestidade com que diversos assuntos socialmente delicados são abordados pela história (dentre eles, à semelhança de Adolescência, uma trama sobre um garoto com tendência a ações violentas para com meninas) ou mesmo a ausência intencional de uma trilha sonora sensacionalista demais, que pesasse a mão na condução emocional das cenas mais intensas. The Pitt não precisa disso, e a série fica muito mais gostosa de assistir ao se ancorar nas interpretações naturais, no roteiro inteligente e na apresentação visual pé no chão.
Mas fora isso, eu realmente senti que essa série retoma muitos atributos da TV seriada dos anos 2000, que já tinha ganhado mais maturidade e evolução técnica a partir de marcos televisivos como Família Soprano, mas que ainda se sentia satisfeita em seu formato televisivo, que não tentava ser um “filme de seis horas” (alô, Disney Plus).

Desse modelo anterior, The Pitt aproveita uma maior quantidade de episódios, que se permitem ser episódicos, ao trazerem tramas fechadas, mesmo que também façam parte de um arco narrativo mais longo. Mas junto disso, a série se utiliza das vantagens atuais dos streamings, como uma duração de episódios mais flexível, o impacto realista de cenas visualmente explícitas, o uso de um linguajar mais livre (com palavrões eventuais) e a capacidade de amarrar todo esse conjunto de elementos numa obra 100% planejada do começo ao fim.
E ainda bem que os herdeiros de Michael Crichton implicaram com a série, já que ela funciona muito melhor sendo apenas uma sucessora espiritual de ER. Se não fosse assim, talvez tivéssemos ganhado um produto muito mais voltado à nostalgia, com George Clooney surgindo numa participação especial ou algo assim. Mas o que recebemos, para mim, é bem melhor: uma série que homenageia um certo jeito de se fazer narrativas seriadas, ao invés das próprias narrativas em si. Um jeito que existia nesse ótimo começo do século XXI, onde a TV conseguia nos fazer companhia semanalmente ao nos deixar compartilhar a vida diária de personagens memoráveis. E The Pitt se encaixa perfeitamente nessa categoria.
Com o final iminente de hoje, ficarei com saudades… mas outra coisa legal das séries de antigamente é que elas sempre voltavam no ano seguinte, e com The Pitt não será diferente. :)





















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