Matador de Aluguel (1989) é um faroeste deliciosamente revestido dos excessos dos anos 80.

Críticas Gerais

Já pararam para pensar que Matador de Aluguel (Road House, 1989) pode ser considerado um faroeste bem tradicional? Só que revestido, da cabeça aos pés, dos excessos dos anos 80 — mullets, jeans azul, mulheres peladas e muita porrada. Claro que gostar ou não disso depende exclusivamente de preferências (ou tolerâncias) pessoais, mas dentro de sua proposta… eu o vejo como um filme muito bem executado, principalmente graças ao apelo extremamente magnético de Patrick Swayze.

 

 

Ok, eu ainda prefiro a primeira metade da trama, onde somos apresentados lentamente à cidadezinha de interior e seus personagens, acompanhando a mudança gradual do agitado Double Deuce: de um bar atormentado pelo caos (algo estabelecido numa das melhores cenas de briga coletiva regada a cerveja e música que já vi) a um ambiente (só um pouco) mais seguro e civilizado, sendo essa uma transformação muito bem pontuada pelo design de produção, que vai, ao longo das cenas, limpando e civilizando o local — quase ao ponto de o domesticar, eu diria.

 

Nesse trecho introdutório, o discurso de Dalton (Swayze) sobre “ser gentil” ao enxotar os encrenqueiros é muito interessante e dá o tom de seu personagem, assim como a frase “ninguém vence numa luta”. São pequenas gotas de reflexão num filme que, obviamente, joga tudo isso para fora na segunda metade... mas o faz sem culpa já que a base emocional e ideológica dos personagens foi super bem construída antes.

 

 

A título de comparação, a mentalidade inicialmente centrada de Dalton me lembra os melhores atributos do filme Rebel Ridge, lançado pela Netflix em 2024, cujo protagonista interpretado pelo Aaron Pierre também parece seguir, aos limites de sua tolerância, uma filosofia de vida anti-combativa… pelo menos, até onde isso é possível, dadas as situações extremas às quais ambos os personagens são submetidos. Mas eu diria que a violência eventual que emana deles só é tão impactante (ou mesmo satisfatória) de assistir porque, antes, testemunhamos o quanto eles se seguraram e tentaram soluções menos destrutivas.

 

Com isso em mente, gosto muito de ver o Sam Elliot sendo um parceiro que aparece, a princípio, somente para brigar pelo protagonista e flertar com “sua” mulher (Kelly Lynch, infelizmente, sendo pouco mais que um troféu disputado pelos caras), mas que sorrateiramente injeta no filme um coração a mais, que não só contribui para nos importarmos com essa amizade, mas também coloca em cheque as concepções de Dalton (Swayze) sobre si mesmo. Através dessa participação, entendemos que o estilo de vida centrado do protagonista até pode parecer estável, mas também é solitário… e capaz de esconder feridas que precisam ser enfrentadas, para que o verdadeiro equilíbrio interior e exterior, social e anti-social ou violento e pacifista seja alcançado.

 

 

Agora, é bastante nítido o quanto Matador de Aluguel é feito para ser um suco concentrado de testosterona, e ter noção disso torna a coisa toda inevitavelmente boba. Por exemplo, acho curioso o tanto que demora para esse bando de marmanjos se enfrentar com armas que, de fato, resolveriam a situação de forma definitiva, mas isso não acontece porque o desejo de todos ali é permanecer repetindo o ciclo de porradas para definir quem tem o maior p... poder de persuasão. 

 

Os ímpetos violentos são, portanto, uma forma velada de socialização, que procura o risco do perigo apenas porque essa é a natureza primitiva desses homens. Mas até certo ponto — até a coisa ficar verdadeiramente pessoal — eles não cogitam ultrapassar esses limites, provocando ferimentos realmente fatais.

 

Nesse sentido, vejo como uma das essências do filme uma certa infantilização da natureza masculina — eternos "meninos" brigando no recreio da escola, que preferem lutar com os punhos porque se importam mais com a aparência da coisa toda: a imagem de força que permanece vinculada ao "vencedor". 

 

Dalton escapa disso, por um tempo, através da sua indiferença e controle das emoções, ciente da banalidade desse comportamento grupal, num exemplo de maturidade que pode ser explicado pela sua formação em filosofia ou mesmo sua inclinação às artes marciais orientais.  Aliás, esse é um aceno bacana para a superioridade do intelecto sobre a força física (no caso da filosofia) ou mesmo do oriente para com o ocidente (pensando nas artes marciais, bem mais comprometidas com uma transformação completa do indivíduo, e não só de seus punhos).

 

 

Em resumo, Dalton é um personagem definitivamente interessante, desenvolvido por detalhes nunca espalhafatosos mas sempre intrigantes, como o uso de dois carros — um para viajar e outro para sofrer os esperados vandalismos dos seus inimigos — e admiro demais a parcimônia com que a narrativa entrega esses elementos. Num dado momento, vemos Dalton comprar dois pneus e os colocar no porta-malas do carro número 2, e só depois entendemos que isso faz parte de uma resposta esperada aos diversos pneus furados que ele encontrará diariamente.

 

Mesmo assim, como já mencionei, Dalton eventualmente sucumbe às emoções, quando o escalonamento da situação provoca perdas importantes e mesmo a sua racionalidade não resiste à tentação da violência primal que habita esses homens... e com isso o filme faz a transição de uma rixa imatura para uma inevitável explosão (ou várias, na verdade) de brutalidade, costumeira desse tipo de cinema escapista divertido e bobo dos anos 80. 

 

Se comecei o texto chamando a atenção para as características tradicionais do faroeste, com o protagonista sendo esse estrangeiro que chega para trazer ordem a uma comunidade baderneira, reforçando valores civilizatórios e se tornando respeitado pelo povo que ele protege… o final do filme não trai essa proposta, embora apenas adicione mais alguns litros de combustível inflamável ao que seria um esperado tiroteio entre mocinhos e bandidos.

 

Na minha opinião, é aquele tipo de bobeira que se fazia direito naquela época, seja pelos ótimos set pieces de ação, que demonstram um domínio incrível de cenas com uma quantidade enorme de atores e dublês, seja pela trilha sonora oitentista deliciosa de se ouvir, complementada pelo neon do Double Deuce… ou através do puro e simples apelo sedutor de Patrick Swayze. Ou, especificamente, do seu cabelo. Não sei dizer qual dos dois é o verdadeiro responsável ali. 

 

Comentários 2

L
Lucas Filmes28 de março de 2025
Voadoras nunca foram tão épicas quanto nesse filme!
G
Gustavo Girotto28 de março de 2025
Em resposta a Lucas Filmes: pode crer! haha

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