O desejo primitivo em "BabyGirl" não está nem aí para o que a sociedade pensa (que bom!)

Críticas Gerais

O cinema sempre teve uma relação curiosa com o desejo. Por muito tempo, a expressão do olhar sensual foi um campo de exploração quase exclusivo dos homens: a câmera oscilava entre a cumplicidade e a indulgência ao apresentar as fantasias masculinas, enquanto o desejo feminino era reduzido a um reflexo, um espelho para refletir e amplificar a masculinidade. 

 

Mas quando terminei de assistir “BabyGirl", saí do cinema - ou melhor, do sofá da sala - com a sensação de que finalmente essa relação parou para olhar para o que é o desejo feminino. Entenda, não estou falando de novelas água com açúcar, príncipes em cavalos brancos ou felizes para sempre. 

 

O longa traz um olhar que desafia essa lógica de que apenas conto de fadas podem excitar uma mulher. Tudo isso de maneira desconfortável, brutal e visceral. Ele não apenas dá um espaço central ao desejo feminino, mas o faz de maneira que desmonta completamente as convenções cinematográficas do erotismo tradicional. E, como se isso não fosse suficiente, coloca Nicole Kidman nesse papel, amplificando a sensação de desconforto com sua presença elegante e meticulosamente controlada - um exemplo perfeito da visão masculina do que é  ser uma mulher completa.

 

Desde sua primeira cena, "BabyGirl" estabelece que não estamos diante de um relato confortável sobre poder e sedução. A personagem de Kidman, uma executiva de sucesso, se movimenta pelo mundo corporativo com a mesma precisão com que um predador circula seu território. Mas o filme não a apresenta apenas como uma mulher poderosa e sexualmente confiante – esse clichê já foi explorado antes. Em vez disso, o longa mergulha na estranheza e na crueza do desejo feminino, um desejo que não se encaixa nas narrativas fáceis do erotismo tradicional.

 

A relação central do filme – entre a personagem de Kidman e um jovem estagiário, interpretado por Harris Dickinson – não segue a estrutura previsível da sedução e submissão. Há um jogo de poder, sim, mas ele é inquietante porque não obedece às regras habituais da ficção. Kidman não é uma femme fatale que manipula seu jovem amante com uma confiança inabalável. Pelo contrário, sua personagem é flagrada em momentos de dúvida, de ansiedade, de um desejo que, por vezes, parece roçar o patético. Ela quer, mas o querer é uma força bruta, sem verniz, sem glamour.

 

E é aí que BabyGirl se distancia de outras narrativas sobre mulheres exercendo seu desejo. Não há a estetização clichê que vemos nos thrillers eróticos dos anos 80 e 90, onde a mulher sedutora era uma figura quase mitológica. Aqui, o desejo é algo cru, desajeitado, às vezes até grotesco. O filme nos força a confrontar essa realidade: o desejo não é o pornô que assistimos no celular, cuidadosamente editado e roteirizado para proporcionar uma ilusão de controle e previsibilidade. O desejo é feio, primitivo, um impulso que frequentemente desafia a lógica e as convenções sociais. E o que mais assusta essa indústria, é que ele também é um sentimento válido para mulheres.

A direção abraça esse desconforto. A câmera evita os enquadramentos que tradicionalmente sexualizam as personagens femininas. Não há o clássico slow motion sensual, nem o olhar que convida o espectador a se deliciar com a beleza dos corpos. Pelo contrário, o filme insiste em uma cinematografia que ressalta a materialidade dos corpos: os gestos nervosos, os olhos que desviam, os momentos de hesitação. O desejo aqui não é um espetáculo; é um fardo, uma força que move as personagens de maneira errática e, muitas vezes, dolorosa.

 

Nicole Kidman é a escolha perfeita para esse papel porque sua presença amplifica o incômodo. Estamos acostumados a vê-la interpretar mulheres sofisticadas, frias, calculistas. Mas aqui, sua personagem carrega uma inquietação que desafia essa imagem. Há algo de profundamente humano e vulnerável nela, uma rachadura na superfície impecável que a atriz construiu ao longo de sua carreira. Ver essa mulher, que parece sempre estar no controle, sucumbir a um desejo que a desestabiliza é o que torna BabyGirl uma experiência tão perturbadora.

O filme também desafia a ideia de que o desejo feminino precisa ser domesticado ou justificado. Não há uma explicação psicológica fácil para a atração entre os protagonistas. Não há traumas passados que sirvam de desculpa para suas ações. O desejo existe porque sim – porque faz parte da experiência humana, porque mulheres também sentem, porque o poder e a sexualidade se entrelaçam de formas que nem sempre podem ser racionalizadas.

 

E, no entanto, Baby Girl não transforma isso em uma celebração. O desejo, aqui, não é um portal para a libertação. Pelo contrário, ele é um campo de batalha, uma fonte de angústia tanto quanto de prazer. As personagens não emergem da experiência transformadas ou iluminadas – elas são, no fim, apenas mais conscientes do abismo que separa o que queremos daquilo que realmente podemos ter.

Esse é um dos aspectos mais subversivos do filme. Ele nos força a encarar o fato de que o desejo não segue uma lógica confortável. Ele não se encaixa nas narrativas de empoderamento que o cinema contemporâneo gosta de vender. Não se trata de uma mulher descobrindo sua força através do sexo. Não se trata de uma relação de dominação tradicional invertida. Trata-se, antes, de um retrato do desejo como algo caótico, perturbador, impossível de ser reduzido a fórmulas.

 

Ao final de Baby Girl, não há catarse, nem redenção. O desconforto permanece, e é exatamente isso que torna o filme tão poderoso. Ele nos lembra que o desejo não é algo que possa ser completamente compreendido ou controlado. Ele nos lembra que o olhar feminino pode ser tão intrusivo e inquietante quanto o masculino. Ele nos lembra, enfim, que o cinema ainda tem muito a explorar quando se trata das complexidades do desejo.

Em um mundo saturado de representações plastificadas da sexualidade, Baby Girl surge como um sopro de ar – não fresco, mas denso e carregado, como se estivéssemos respirando dentro de um espaço apertado, onde o desejo se faz sentir de maneira inescapável. E talvez seja exatamente isso que o cinema precisava: um filme que não tenta tornar o desejo feminino palatável, mas sim reconhecê-lo pelo que ele realmente é – estranho, feio, primitivo, e profundamente humano. 

 

O mais interessante é que não pude deixar de compará-lo com Belle de Jour (1967), de Luis Buñuel - que ironicamente havia assistido alguns dias antes. Ambos os filmes exploram o desejo feminino de maneiras desconfortáveis e não convencionais, recusando-se a oferecer explicações fáceis ou narrativas moralizantes. Enquanto Belle de Jour acompanha Séverine, uma mulher casada que se vê atraída pelo mundo da prostituição diurna como uma forma de explorar sua própria sexualidade reprimida, Baby Girl apresenta uma personagem igualmente enigmática, cujo desejo surge como uma força desestabilizadora. Em ambos os casos, o desejo não é glamourizado nem resolvido; ele é tratado como um enigma que desafia as convenções sociais e narrativas tradicionais. No entanto, o que diferencia os dois filmes é a maneira como o olhar é construído: se em Belle de Jour ainda há resquícios do fetiche masculino pelo controle da fantasia feminina, Baby Girl parece querer subverter essa lógica, forçando o espectador a confrontar a estranheza do desejo sem filtros ou embelezamentos. 

Por fim, se você esperava assistir a um filme sexy, na linha do mais simples BDSM em “50 tons de Cinza” vai com certeza se decepcionar - e eu honestamente espero que esse não seja o caso. Muitas pessoas esperavam mais um conto sensual de Hollywood e, como já expliquei acima, ele está muito muito longe de ser algo do tipo: e que bom que não é. Precisamos ser mais justos com o prazer feminino.

Comentários 2

C
Carlos Norcia14 de março de 2025
Estou com esse filme na minha lista desde que saiu, querendo ver justamente pq torcia pra ser uma representação do desejo feminino que escapasse dos clichês e do ideário conservador atual – agora que li seu texto, é o próximo filme que vou ver, com certeza!
B
Bia Matera13 de março de 2025
Que texto! Você trazer esses dois títulos e sua análise na semana do Dia Internacional da Mulher foi algo certeiro. Recomendo o episódio do podcast Café da Manhã desta segunda-feira onde, entre outros tópicos, discutem o prazer feminino.Pelas outras críticas que eu tinha lido, tava com medo que fosse algo mais 50 tons de cinza, mas vou confiar na sua visão e dar uma chance. Por mais que a Nicole Kidman seja perfeita, gosto da imagem que você construiu aqui do desejo como algo cru.

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