"É Assim Que Acaba" seria perfeito se não fosse por um detalhe

Críticas Gerais

Em um mundo onde as histórias de amor muitas vezes seguem um roteiro previsível, a adaptação cinematográfica de "É Assim Que Acaba" emerge como uma narrativa que desafia expectativas. Inspirada nas tendências do TikTok e na paixão de fãs por todo o mundo, a obra de Colleen Hoover ganha vida nas telas, preservando a essência da trama original e seu potencial para emocionar e surpreender.

 

A trama tem início com um acontecimento marcante: o falecimento do pai de Lily, interpretada por Blake Lively , uma atriz que consegue transmitir com sutileza a complexidade dos laços afetivos da protagonista. É nesse cenário de perda e revelações que Lily encontra Ryle, um neurocirurgião encantador vivido por Justin Baldoni , que também assume o papel de diretor com uma sensibilidade impressionante.

A química entre os protagonistas é palpável e, embora os personagens possam parecer clichês à primeira vista, a interpretação de Jenny Slate  como a melhor amiga e irmã de Ryle traz nuances que enriquecem o enredo. À medida que a história avança, as camadas de cada personagem são desvendadas, revelando traumas e conflitos internos que se entrelaçam com a trama principal.

 

O filme não se esquiva de temas pesados, como a violência doméstica, abordando-os com uma elegância que realça a gravidade sem explorar o choque visual. A direção de Baldoni é habilidosa ao lidar com cenas de tensão, mantendo uma ambiguidade que reflete o estado emocional de Lily ao confrontar a verdade sobre seu relacionamento.

 

A trilha sonora, com destaque para a música "My Tears Ricochet" de Taylor Swift, confere ao filme uma profundidade emocional que dialoga diretamente com o público. No entanto, a tentativa de responder às críticas sobre a romantização de relacionamentos abusivos pode ter resultado em uma narrativa mais diluída, embora elegantemente executada.


[Spoilers adiante]

 

É por isso que o filme faz uma única grande mudança em relação ao livro, alterando o final da história - e, consequentemente, a mensagem que ela transmite. No final do livro, Hoover, que inspirou grande parte da trama nas experiências de sua mãe como vítima de violência doméstica, revela que teve uma relação próxima com o pai, apesar de tudo, pois a mãe da autora (assim como Lily no livro original) compartilhou a guarda da filha com o ex-marido após a separação. Essa é uma concessão que a escritora considera “[um dos] passos necessários para quebrar o ciclo antes que ele nos destrua”.

No filme, a guarda compartilhada é deixada de lado, e Lily decide afastar também a filha do convívio com Ryle. Com isso, ela continua ressentindo o pai e, possivelmente, criando um ambiente semelhante para sua filha. O ciclo, nesse caso, apenas se perpetua - usando os próprios termos de Hoover.

 

Essa decisão narrativa deixa uma ponta solta que, embora possa ser vista como uma falha segundo os manuais de roteiro, também pode ser encarada como uma profecia trágica que acentua a profundidade da narrativa. "É Assim Que Acaba" não apenas se propõe a ser uma adaptação fiel, mas também uma reflexão sofisticada que permanece com o espectador muito depois do término dos créditos.

 

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