Goncharov: o filme de Scorsese que nunca existiu?
Eu não gosto de premiações. No fim das contas, elas só parecem uma festa onde um bando de pessoas ricas e poderosas se reúne para dar tapinhas nas costas uns dos outros, ignorando muitos filmes independentes que merecem mais reconhecimento. Por outro lado, se eu fizesse parte da bolha, talvez eu me sentisse um pouco diferente sobre como elas parabenizam a si mesmas. Porém, dado que eu gosto mais de assistir filme do que fazê-los, isso seria bastante improvável.
Improvável, mas não impossível. Deixe-me explicar.
Um filme de Scorsese há muito tempo perdido?

Algo muito fascinante aconteceu em novembro de 2022: um filme perdido há muito tempo de Martin Scorsese foi redescoberto. Considerando os muitos prêmios que esse homem ganhou (incluindo potencialmente o desse ano por Assassinos da Lua das Flores), é difícil imaginar que um dos seus filmes sendo esquecido assim. Porém, aí está, Goncharov, um filme de 1973 que era “aparentemente” o maior filme de máfia já feito. Ambientado em Nápoles, é uma história subversivamente queer-coded sobre mafiosos russos e italianos, estrelando grandes nomes como Robert De Niro e Al Pacino.
Infelizmente, porque Goncharov está perdido há tanto tempo, alguns dos detalhes não ficaram tão claros quanto seria ideal. Quando o filme foi redescoberto no Tumblr, houve uma discussão se Scorsese era o diretor ou o produtor, já que outro homem (bem mais misterioso) parece ter sido creditado como diretor também: Matteo JWHJ0715.
Que sobrenome único, né? Se a inteligência artificial fosse creditada pelos filmes que cria, não seria impossível vermos nomes como este, mas isso parece bastante improvável para um filme de 1973...
Goncharov: quando a ficção se torna um fato

O que faz sentido, porque Goncharov não é real, na verdade... ou não era, até ser. Quando eu digo que o filme foi redescoberto no Tumblr, o que realmente aconteceu foi que alguém comprou botas falsas e descobriu que a etiqueta não tinha apenas um erro de ortográfico como “Guccy” ou “Balencaga”, mas sim uma descrição bizarra de um filme de Scorsese de outro universo: o agora famoso Goncharov.
O que se passava pela mente do designer das botas provavelmente permanecerá um mistério para sempre, mas o que não é um mistério é que o Tumblr viu uma oportunidade e se aproveitou dela. Pois bem, há uma... bom, acho que poderia dizer uma espécie de movimento artístico? É chamado “irrealidade”, em que as pessoas basicamente “levam a piada longe demais”, fingindo que algo falso é 100% real. Goncharov foi uma mina de ouro da irrealidade – havia detalhes básicos suficientes para estabelecer uma premissa básica consensual, após a qual os usuários poderiam criar falsos resumos, análises, pôsteres e até trilhas sonoras e fanfics sobre o filme.
Obviamente, a piada acabaria um dia. Mais cedo ou mais tarde, o cânone falso estaria sólido o suficiente para que não restasse muito a acrescentar. Um dia, pessoas demais saberiam que o filme era falso e a alegria de enganar outras pessoas passaria. E a internet seguiria em frente.
Porém, não antes de Francesca Scorsese mandar uma mensagem para o seu pai, recebendo como resposta: “Sim, eu fiz esse filme muitos anos atrás”.

Quais as implicações mais amplas?

Tudo isso pode parecer só uma história engraçada para você, mas não é, ou pelo menos, não tem que ser. Posso ser um pouco tendenciosa como fã de liveplays de Dungeons & Dragons como Dimension 20, mas Goncharov parece mais uma evidência de uma tendência crescente que tenho notado: histórias narrativas colaborativas. Chamar de nova tendência seria um pouco estúpido, no entanto. É mais como voltar à maneira como as histórias eram historicamente criadas por um grupo de pessoas entediadas sentadas ao redor de uma fogueira e que adicionam devagar conteúdos ao enredo.
Independentemente disso, Goncharov só mostra que projetos colaborativos de narrativa não são apenas agradáveis de se fazer, mas também podem ser incrivelmente ricos e detalhados. Todo mundo reclama hoje em dia da “Marvelização” do cinema ou de como os filmes parecem ser a mesma oferta insossa e fácil de vender. Mas imagine, se alguém fosse realmente corajoso de tornar Goncharov tão real quanto ele fingia ser. Como tantas vozes se reunindo, é difícil imaginar que o resultado não seja único, sem falar que uma história criada por colaboração aberta tem um público já integrado quase que por natureza.
Não acho que Goncharov é o passo final dessa jornada. Para criar uma comunidade de narrativa colaborativa sustentável, é preciso ter plataformas que facilitem o processo e um sistema para remunerar os criadores. Porém, acho que estamos no caminho, então não fique surpreso se você encontrar filmes que começaram como um exercício de escrita criativa colaborativa. Talvez com o tempo, a colaboração não se limitará somente a escrita, com todos os aspectos dos filmes sendo “colaborativos”. Tudo o que eu espero é que eles consigam vencer as bobagens regurgitadas pela IA. Quem sabe, talvez um dia até vejamos um filme falso do Scorsese realmente dirigido por Scorsese.






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